O guerrilheiro e o filho da utopia

ACTO I – CARTA AO GUERRILHEIRO
Cda NICOLAU KASSOMA “HANDA YILU”, peço que aceite os meus melhores cumprimentos. Preferia chamar-te pai, mas não ficaria bem com a abreviatura de camarada. Além disso, nos últimos tempos sinto vergonha de te chamar pai, do mesmo modo que acontecia com os angolanos sofredores dos poema “Minha mãe, todas as mães negras…” de autoria do Guia Imortal da Nação Angolana. Sim, pai. Sinto vergonha porque não sou digno de me considerar teu filho se não conseguir razoavelmente realizar os propósitos pelos quais te sacrificaste. Sei que não tens conta no Facebook, blog no WordPress, ou outras formas de interacção pós-contemporânea, mas deixo-te essa mensagem à mesma. De resto, Deus também não está nas redes sociais e agora parece moda orar de modo exposto nestes sítios para vender aos outros a ilusão de que somos pessoas de fé, em vez de nos preocuparmos em produzir frutos dignos de quem reclame para si o título de filho do Deus do amor e do perdão; porquanto irmão do Cristo sacrificado em nome de uma nova chance de ligação com o plano elevado da existência humana. Mas voltemos à nossa conversa, Cda PAI. Faz algum tempo que nem ao telefone falamos. Nem imaginas o quanto me dói. Mas não sei mais o que dizer nem como encarar o teu desencanto pelo prémio que recebeste pela luta de libertação nacional e trabalho dedicado à pátria desde 1962. Ainda tenho o teu processo para acesso às pensões de antigo guerrilheiro do Movimento, mas todos os contactos feitos em nada deram. Se a ti a pátria trata desse modo, tenho muitas dúvidas quanto ao tratamento reservado à geração resultante das vossas lutas, e muito medo sobre o que restará para as gerações futuras. Ainda me lembro do orgulho com que ostentavas as tuas medalhas e a entrega com que sempre te dedicaste aos assuntos da tua formação política. Eu não tenho medalhas e perfilho um posicionamento cívico menos condicionado a opções políticas. Não obstante as nossas diferenças, és provavelmente a pessoa que mais amo na vida. Meu amigo. Para ajudar a realizar as causas e os valores com que me educaste, fiz do Direito a principal ferramenta do meu modo de viver. Mas de repente, parece que o direito já não vale. Pai, eu achava que não havia pena de morte em Angola. Nem formal, nem informal. Directa ou indirectamente. Mas os tempos e os actos parecem cada vez mais estranhos. Eu acredito que a vida de uma pessoa vale muito mais que a frieza de uma opção processual, que nem sequer substantiva. Ficamos como assim pai? Assim mesmo está bom? Eu sinto que não. Não posso concordar com a promoção da morte de alguém, nem que este alguém seja incómodo e muito teimoso. Sempre que esteja ao nosso alcance evitar a morte de alguém, é nobre e um dever fundamental de humanidade que o façamos. O pai quando estudava Direito queria integrar tribunais de defesa de direitos humanos. Isso fazia abarrotar a minha alma de orgulho. O que dizer então do juiz que tinha ao seu alcance a possibilidade técnica e legal de evitar que alguém fosse ao encontro da morte e friamente não o fez? Em nome de que(m) assim procede? Nem já se dá ao trabalho de justificar? A lei é o critério de decisão no âmbito do Estado, mas não é ela mesma a decisão. Deve ser temperada com a ética e a humanização da decisão perante os factos do caso concreto, e da pessoa viva e individualmente considerada sobre cujos direitos se decide. Sem isso, as instituições de justiça estariam a demitir-se do seu papel. E amanhã é sempre tarde demais. Enfim, pai. Apenas queria te dizer que ainda não somos o “homem novo crescido na Pátria de Neto” do hino da OPA. Não faço a menor ideia do itinerário para onde poderá dar este caminho de formalismo e insensibilidade solene, mas estou certo de que não foi isso que combinamos ou que aprendemos sobre o papel do Estado, da justiça e do direito. Que cada um faça a sua parte, mas que seja em tempo útil. Só será justificada a vossa luta se é na medida em que conseguirmos que ANGOLA seja incondicionalmente PRO VITAE e PRO DIGNIDADE.

ACTO II – CONDIMENTOS À ESPERANÇA
Na sequência da carta e como resultado das indiferentes contribuições ao exercício gerado pelo acto supra, foi estabelecido um contacto com o Guerrilheiro que havia sido reportado sobre a forma de contrário. Passado um ano desde a publicação original, somos a integra-lo na peça princípal como sendo o Acto II desse drama da nossa angolanidade. Destarte, COMPANHEIR@S.
Acabo de conversar longamente com o Cda NICOLAU, a quem relatei em linhas gerais o conteúdo da carta. Ficou o compromisso de alguém que viva no Lubango faze-lo Chegar a carta, depois de impressa, uma vez que ele não tem Facebook. É excelente haver essa possibilidade de retorno expresso da mensagem, que em relação a Deus e aos que se julgam deuses dificilmente seria materializada. Basicamente a resposta do nosso Camarada foi de que “O OPTIMISMO É A UNICA COISA QUE NOS PODE SAFAR”. Não referi na carta, mas ele esteve preso pela PIDE nas instalações onde hoje funciona o hospital prisão e a conversa passou por aí. Segundo o nosso Cda PAI, “aprendemos na vida e em períodos como a cadeia que ser optimista e manter a cabeça erguida são atitudes imprescindíveis para que possamos seguir em frente”. Essa palavras foram terapêuticas para mim. Tinha saudades do óptimos crónico (e não necessariamente com justa causa) que sempre marcou a postura dele. É que há alguns meses ele foi coberto por um tom cinzento que me fez sagrar a alma. De volta à luz, HANDA YILU sublinha que as dificuldades devem ser aproveitadas para que nos esforcemos mais, melhoremos as nossas capacidades e assim tenhamos mais argumentos e ferramentas perante os desafios futuros. Perante a nota de que uns se esforçam e nada conseguem quando outros aparentemente navegam numa frequência especial e supersónica em direcção à opulência embriagante, não deixou de protestar contra a desigualdade de armas, mas lembrou que acaba sendo nossa a última escolha sobre como isso nos afectam o âmago do nosso cerne e o fôlego do nosso ser. Passar a vida a pensar no mal ainda provoca mais e crónicas doenças. E aí, com a nossa ajuda, a injustiça estará sendo elevada à segunda… senão mesmo à enésima potência. Maravilhoso. Enorme! Não é que ele insiste no optimismo, por cima dos seus quase 75 anos e depois de ter tido que recomeçar do zero pelo menos cinco vezes na vida? Há quem fale em teimosia positiva, eu talvez diga espírito de luta. GRANDE CIYAKA! Com as devidas adaptações, sinto estarem a tocar no cerne do meu âmago duas conhecidas passagens de músicas ancestrais umbundu: (i) “KULO KOFEKA YO KUYAKA KAYAKELA A TUNDE MO” (ii) “OKAMBO KETU KATITO… KATEKE TULISANUMÜLA TUTANDA KO”. Haja pois luta em forma de trabalho e agigantamento em forma de consolidação dos mecanismos de crescimento e justiça transversal. ANGOLA AVANTE… PÁTRIA UNIDA. ESTAMOS JUNTOS
Nguvulu Makatuka, in Onjango Cibernético, 2015. Editado e integrado em Outubro de 2016.

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