CONFISSÕES (e notas) DE UM FRUSTRADO GERACIONAL

Sinto muito, MÃE ANGOLA. Peço que me perdoes por não ser o filho que merecias. Peço também desculpas pelos meus irmãos. Alguns deles nem se dão conta do mal que te fazemos. Outros sabem mas optam por fingir ou fugir. Há coisas que não estão ao nosso alcance melhorar, mas conversar abertamente sobre o assunto já é um começo. Não sei se é o melhor começo, mas algum começo anima-me mais do que o comum silêncio sobre o que te afasta do progresso.

Já fui um bebé que nasceu com prazo vencido e quase teve de ser arrancado do ventre materno para um cenário de incompreensível guerra entre pessoas que – afinal – queriam a mesma coisa. Já fui uma criancinha que via e percebia mais coisas do que os adultos desconfiavam.

Uma criancinha que lutava com a dificuldade de perceber por que razão os primeiros amigos da sua vida não tinham pais. Se eles tinham barrigas enormes, por que razão os ossos dos seus peitos pareciam desenhar os caminhos que seguiam para o Mundudu ou para kakoma? Era ainda mais difícil perceber por que razão as suas clavículas pareciam reservatórios para água, de tão fundas que estavam. Era uma criancinha não só expansiva, mas preocupada e em grande medida perturbada.

Hoje ainda sou essa criancinha cujos primeiros amigos eram, afinal, os meninos acolhidos pelos Assuntos Sociais depois de tudo terem perdido nas suas aldeias. Eles não tinham algo a que pudessem chamar casa ou lar. Muito menos poderiam falar em família. Apenas podiam contar com um equipamento social, que funcionavam ao lado da casa onde vivi os primeiros dias e anos, no Ukuma. Na casa que eles alguma vez tiveram apenas comunicavam em umbundu. O filho do professor de língua portuguesa (que também era delegado da educação no município) e da senhora enfermeira e professora de biologia pouco parecia ter a ver com aquelas crianças. Mas pode haver fronteiras entre crianças? Quem as estabelece?

Pois, já fui aquela criancinha que tentava aumentar o seu umbundu para melhor comunicar com aqueles seus amigos, e também com o Zimbabwe, amiguinho daqueles tempos iniciais cuja imagem o tempo tragou. Lembro apenas que vivia algures num dos bairros do Ukuma, do lado direito da estrada que dá para a Missão Evangélica Elende, onde continuava a viver a avó CIPEMBE.

Já fui um menino que deixou essa envolvente do início da infância para se refugiar no Wambu. Como os meus amigos, a guerra fez com que também deixasse a minha casa por causa da guerra. Felizmente conservei a família e pudemos refazer a vida num novo lugar. Essa criança viveu, cresceu e passou por muitas coisas que não cabem aqui nem agora. Nesse percurso aprendeu a amar a pátria e a lidar com toda a gente com a deferência imanente a essa qualidade de gente. Seres humanos vivos, únicos e irrepetíveis. Talvez nem aja com a deferência devida, mas há quem diga que a minha pessoa procura fazer isso na maior parte das situações.

Também já fui adolescente rebelde e irreverente, com cabelos compridos, calças largas a cobrir o magro corpo, com o caderno (único para o ano lectivo) enrolado e guardado sem particular cuidado no bolso de trás das calças jeans. “Por que razão teria mais do que um caderno se não tinha o hábito de tomar apontamentos?”.

Anos antes esse rapaz era até relativamente “certinho” na Escola Deolinda Rodrigues. Lá sim, era preciso ter os cadernos bem tratados e a pasta em ordem. Senão nem, à sala chegava-se sem levar uma peculiar reprimenda. No matutino, depois de cantar o hino, o professor fixe tratar-lhe-ia da saúde. Esse professor, cujo nome verdadeiro quanse ninguém sabia, fazia o gesto associado essa expressão depois de enfiar umas valentes bofetadas aos alunos em jeito de repreensão pública. Era comum essas acções ocorrerem no matunino ou vespertino. Isso eram outros tempos em outra escola. O adolescente rebelde era aparentemente bem diferente daquele outro. Apenas tinha um qualquer caderno enrolado, do qual pouco ou nenhum uso fazia. O mais estranho é que o sujeito que nem apontamentos tomava, no fim da aula era interventivo e os professores pareciam gostar de conversar com ele. Não fazia apontamentos, mas prestava atenção às aulas. Além disso, sempre teve o hábito de ler os livros das classes mais avançadas durante os tempos livres. De resto, a opção de ouvir as aulas era mais prática à alternativa, num contexto em que mal havia carteiras ou algo equivalente. Havia alunos que tinham de se sentar à janela, e alguns que se encostavam à parede desde o lado de fora da sala, usando o parapeito para apoiar o caderno. Não faltavam colegas que tinham dificuldade em encarar com nornalidade o adolescente rebelde, num ambiente em que a maioria parecia seguir uma disciplina quase militar. Com o tempo alguns aprenderam a não julgar o Boy apenas pela aparência de bailarino pop-rock, o que ele efectivamente era com os seus companheiros do grupo “Os Tártaros”.

A verdade é que as pessoas são normalmente mais do que os outros as julgam. O adolescente rebelde já tinha visto várias vezes os olhos da morte, mas tudo isso ajudou-o a seguir em frente e depois se tornar num pequeno jornalista e universitário irreverente. De algum modo ainda o sou o bebé, a criancinha, o adolescente e o universitário das linhas acima.

Mas o tempo passou e muita coisa mudou. Muitas vontades nobres e sonhos iluminados se vão agarrando teimosamente à minha alma, mas os olhos têm menos luz e os sorrisos têm uma estranha semelhança com esgares. Por que será? Por que será que um sujeito que se poderia considerar de classe média tem claros sinais de frustração? Sim, frustração! Talvez porque a vida o tenha ensinado a importância de ouvir. A importância de não julgar sem conhecer e olhar para o outro como igual. É difícil não acusar o toque da realidade chocante que vamos vivendo.

Como não se preocupar com omnipresente desordem e a competição cancerígena que leva as pessoas a fazer (quase) tudo em nome de mais uns cifrões? Outro dos sintomas a assinalar é a febre pelas conquistas pessoais, ao ponto de inviabilizar a prosperidade sustentável do colectivo. Esquecemos que e apenas ela (prosperidade colectiva) pode assegurar o futuro. Basta olhar para o trânsito em Luanda. Quando será que vamos perceber que a ordem precede o progresso e que este é impossível sem aquela? Quando será que as nossas autoridades vão perceber o enorme perigo decorrente da crescente tendência de ignorar ou contornar as regras? Por que razão temos todos tanta pressa? Para onde vamos com esta febre? Não será que o país está a correr tanto que eventualmente se terá esquecido da alma algures no caminho?

Ninguém vê isso? Falar sobre isso leva a que possamos ser considerados frustrados. Mas não é difícil imaginar que não me incomode muito ser visto como um “não alinhado”. Fui isso toda a vida e não pretendo prescindir da minha individualidade agora que os cabelos se me vão ficando brancos antes do tempo. Aliás, não acredito que alguém possa ver virtude em ser ou estar “alinhado” com a mbwanja. Pode ver e tirar vantagens, mas não ousaria alegar haver alguma virtude na desordem.

Hoje dizer que alguém é frustrado parece mau. Mas não é. Temos todos razões para estarmos frustrados. Talvez sejamos todos uns frustrados embora apenas alguns os admitam. Não se riam. Frustrem-se meus senhores! Mas tenham uma frustração controlada e motivante no sentido da acção esclarecida e construtiva no sentido de ultrapassar(mos) os factores que desencadeiam a frustração. Em termos psicológicos, a frustração é o estado mais ou menos acentuado de tensão ou inquietação psico-emocional decorrente de não conseguirmos realizar ou alcançar algo que seja relevante para nós. Ora, considerando este tímido enquadramento da frustração, em Angola não ser ou estar frustrado é que é anormal e talvez mesmo patológico. Só não se sente frustrado quem não se sente na obrigação de contribuir mais e melhor para que ao menos façam sentido os sacrifícios dos nossos ancestrais e dos heróis tombados nas nossas diferentes guerras. Nenhuma morte é justificada e jamais poderíamos justificar a ida deles, mas ao menos que os nossos mortos compreendam “porque partiram afinal”, para citar Teta Landu. Só não sente frustração quem não prestava atenção quando cantava o hino da sua organização cívica da infância, não conhece compromisso contido no hino do seu partido, acha que Angola Avante é apenas uma canção e não faz ideia do quanto custou a nossa bandeira.

Quem se dá ao trabalho de prestar atenção a esses elementos da nossa identidade individual e colectiva, rapidamente percebe que ainda estamos muito longe de ser o “homem novo crescido na pátria de Neto”. Quando éramos miúdos tínhamos imensas brincadeiras. Mas brincadeira tem hora, tem períodos da vida em que podemos e devemos dedicar algum tempo às brincadeiras e, sobretudo, nem todas as brincadeiras são de bom gosto. Algumas delas são mesmo inaceitáveis.

Vale perceber que as brincadeiras sempre devem estar ao serviço de um propósito positivo, normalmente de radical educativo. Não se pode dizer isso sobre muitas das actuais brincadeiras. Veja-se que quando se brincava ao “polícia e ladrão”, normalmente o polícia conseguia apanhar o ladrão e o prendia. Não pedia gasosa, nem sugeria que o saque fosse partilhado. Quando se brincava às casa, havia a tendência de imitar as práticas e obrigações que um dia teríamos nas nossas casas. Era ensaiar e antever coisas boas. O que dizer então do polícia que finge não ver a infracção do taxista porque este paga o seu complemento remuneratório ou entretanto o hiace é do chefe dele. O que dizer uma pessoa encarregue de administrar dado território e não consegue apresentar e executar um plano integrado e sustentável de transportes colectivos? Será porque o caos dos kandongueiros representam rendimentos para muitos dos que têm a obrigação de promover o seu desaparecimento mediante a eliminação das carências e desarticulações do transporte colectivo que ditaram o seu aparecimento? Essas são boas brincadeiras?

Será que é de bom gosto a brincadeira que se faz na recolha de lixo, quando o Estado até poderia ter custos próximos de zero se fizesse uma concessão de recolha de todo o lixo da urbe e o seu aproveitamento para gerar energias limpas por captura de metano nos aterros sanitários? Isso pode? São conhecidas várias propostas dessas, mas parece que a nossa malta que deveria encaminhar esses assuntos é a mesma que criou essas fracas e amadoras empresas de recolha de lixo que andam a sugar a massa do Estado sem cumprir as suas obrigações.

Será que podemos nos dar ao luxo de brincar de país? Se já fui todas as coisas que atrás disse; se me sinto frustrado por fazer parte de uma geração que tinha tudo para prestar um serviço à Nação digno dos sacrifícios consentidos pelos nossos kotas, cada dia que passo aumenta a minha frustração e angústia pelo risco de país nenhum deixar aos meus descendentes. Por mais exagerada que seja essa nota, julgo que a possibilidade de não termos um país para deixar aos nossos pode tornar-se real, caso não acordemos rapidamente e deixemos de lidar com os problemas (des)estrututantes que se agudizam. E não há como resolver problemas estruturais com base em jeitinhos, esquemas e cunhas. Essas técnicas ou tácticas (para quem preferir) é que nos levaram ao estado actual. Ou seja, levaram-nos à progressiva corrosão do Estado em alguns domínios, onde agora o caos é senhor e o individualismo capitalista é o príncipe. Não foi para isso que os mais velhos lutaram. E não podemos deleitar-nos com o rebuçado do adiamento ou sorver distraidamente o gelado do gradualismo. Há coisas que têm que ser feitas já, e de modo inequívoco. É que o não cumprimento das regras tende a tornar-se cultura. Isso é quase certo quando numa dada sociedade as pessoas violam sistematicamente as regras e, de bónus, gozam da complacência da impunidade. Quando algo se torna cultura(l) passa a ser o norma(l), desafiando o sentido do que deveria ser o direito vigente. Este caminho não é apenas perigoso. É jurídica, política, administrativa e socialmente cancerígeno.

Por favor, vamos despertar para a seriedade e gravidade do assunto. Não nos limitemos a olhar para os nossos pés precisamos olhar um pouco para cima e para os lados. Como de modo lapidar disse a Maria de Kamwanga, uma das maiores cronistas deste país, é importante lembrar que “ENTRE O NOSSO UMBIGO E O CÉU EXISTE A HUMANIDADE INTEIRA”. Entre as nossas pretensões pessoais e o sucesso existe o país inteiro, com as suas heranças e ónus em relação às gerações do passado e responsabilidades em relação às futuras gerações. ESTAMOS JUNTOS.

Sempre,

António Kassoma “NGUVULU MAKATUKA”

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