A essencialidade da espiritualidade na preservação da raça humana

Espiritualidade

Talvez nem precise dizer que não sou religioso. A maioria das pessoas com que privo ou troco ideias rapidamente se apercebe disso passadas parcas unidades de tempo. Mas sinto-me em condições de reclamar e lutar pelo direito de ser reconhecido e tratado como um ser dado à espiritualidade.

O facto de não ser religioso não tem apenas a ver com o facto de há mais de dez anos ter decidido deixar de ir à igreja, numa atitude de coerência decorrente da particularidade de ter deixado de me dispor e até pretender conformar a minha vida com certas regras caras à minha então congregação. Para bem dizer, tenho uma convicção diferente quanto a determinadas questões que para a igreja-organização são importantes mas que o estudo e a  meditação reforçaram a minha percepção de que tal não era de todo exigível numa acepção de igreja enquanto congregação de pessoas que celebram e pregam o Espírito da Luz, mas que conservam a capacidade e prerrogativa de uma relação pessoal e proveitosa com o Ele. Neste sentido a igreja é por excelência um órgão colegial em que todos os seus membros estão numa posição de igualdade e equivalência, embora possam estar funcionalmente diferenciados.

Até a altura em que a minha relação com as religiões evoluiu para a situação actual, uma espécie de ecumenismo equidistante, em regra tinha uma relação bastante próxima com a religião cristã (evangélica). Como a maioria de nós, essa relação partiu do meio familiar.

A memória mais antiga que tenho remota aos tempos do Ukuma, antes de termos tido que nos refugiar no Wambu como consequência da falta de segurança provocada pelos constantes ataques da então insurgência armada. Não tenho condições de distinguir a realidade dos acréscimos com que a imaginação a possa ter retocado, mas lembra-me que a igreja parecia ter uma forma semelhante a de um grande armazém com paredes brancas e até parece que tinha estruturas de madeira encostadas a algumas das suas paredes. Era qualquer coisa parecida a grandes estrados colocados paralelamente à parede. Mas julgo que eram seguros. Sem risco de cair. E até algumas pessoas (sobretudo crianças) subiam neles para poder assistir ao culto, compensando com a mesma cartada  a baixa altura e a insuficiência de cadeiras.

Devia ter cerca de cinco anos. Mas já nessa altura era um ser pouco dado a viver em esquadrias e fazer tudo com régua, esquadro, transferidor e essas coisas. Buscava resposta para as minhas perguntas face à aporexia que o mundo me despertava – como normalmente o faz com as crianças – e já era pouco dado a acatar ordens que para mim não faziam sentido, especialmente quando quem ditasse a regra fosse incapaz de demonstrar a racionalidade ou a utilidade da mesma.

Já no Wambu terei ido quase todos os domingos ao templo da Igreja Evangélica do Bom Pastor. É um edifício imponente com cobertura triangular com paredes castanhas. O castanho é dos tijolos expostos em virtude de o edifício na altura não ter sido ainda concluído.

Não sei se hoje as paredes daquele templo foram finalmente cobertas com um simples reboque de cimento que seja. É que isso dependeria em grande medida da contribuição dos membros e aquelas comunidades são maioritariamente de poucas posses. Além disso, a Igreja Evangélica Congregacional não é tão agressiva quanto às contribuições dos membros nem em relaçao ao dízimo. Explicam a importância mas não exigem. Deixam que seja o grau de amadurecimento do crente ou a sua generosidade a ditar quanto querem “dar a Deus”.

Mas talvez os cultos não fossem a principal motivação das minhas idas àquela igreja, onde  a minha mãe e os seus irmãos também já terão ido quando crianças. É que havia lá alguns pés de cafeeiros e era fixe curtir os seus frutos. E a Igreja até fica a pouco mais de cem metros da casa dos meus avós, onde ficamos acoitados antes de termos conseguido um lugar para morar no São Pedro urbano. Além desses doces frutos, junto da igreja havia um Kacambelo (lê-se Katchambelo). Não sei como se poderia dizer em português, mas era um pequeno recinto com relva autóctone, onde as crianças daquela zona se juntavam para o mais variado tipo de brincadeira. Havia a vantagem de que raramente as pessoas se feriam no Kacambelo, mas no fim do dia os sorrisos eram substituídos por esgares e até caretas. É que, depois de brincar no capim, essas expressões eram inevitáveis na hora do banho.

Quando passamos a viver no São Pedro urbano a igreja que frequentava era a do Kalilonge. Também era Evangélica Congregational. Aí era mais crescido e era comum apanhar pelo menos uma a duas surras por mês, devido à tendência de fazer coisas que para mim eram normais e justificadas pela febre de conhecer e entender o mundo e as pessoas. Eu acharia que estava a ser um explorador do mundo como o faziam os cientistas que assistia nos documentários designdos “caleidoscópio”, mas os adultos tinham uma outra visão. Achavam que era malandro.

Nesse contexto, mostrar interesse em ir a igreja tinha uma série de vantagens. Enquanto lá estivesse não estaria na disponibilidade de “ajustar as contas” (código para apanhar surra) por algo que tenha “descoberto” durante a semana e que os meus pais apenas se tenham apercebido tardiamente. Além disso, o dinheiro que era dado para a oferta acabava sempre por me sugerir que não ficava bem no balaio da igreja, e que ficava melhor no kafokolo de uma senhoras que vendia kalifibeu ou caramelos na praça do Kalilonge, a pouco mais de quinhentos metros da igreja.

Na adolescência e nos primeiros anos de adulto passei a fequentar a Igreja Baptista. Foi um período muito gratificante. Eu sempre soube imensas coisas da Bíblia. Além das leituras directas, por volta dos doze ou traze anos já conhecia grande parte do seu conteúdo, sobretudo do Velho Testamento. São histórias únicas e ricas que tinha ouvido contar imensas vezes pelo meu pai. É que ele cresceu na igreja e até parece que os “planos” eram que se tornasse pastor, mas nos anos 80 não podeia ir à igreja porque era do Partido (já desde 61, na verdade) e a adopção do modelo marxistas implicava que não pudesse frequentar a igreja. Eu estava sempre disposto a ouvir o meu amigo (é o que mais sinto que ele é para mim).

Como dizia, a fase da Baptista foi muito gratificante para mim. Como não poderia deixar de ser, não era um cristão típico. Continuei a ser um “explorador” e seguia não sendo propenso a me colocar nas páginas da vida como nos ensinaram em desenho técnico: tudo com régua, esquadro, transferidor, rebatimento e essas coisas. Estava mais para a arte livre (de apreciar a vida), que não apenas em papel ou tela, mas também nas paredes e mesmo em becos escuros. Arte sem limites em direcção à plenitude.

Algumas das coisas mais gratificantes foi ter aprendido a fazer um estudo metódico e objectivamente sustentável da palavra. Isso associado aos esquemas de raciocínio que tinha aprendido com o velho e a minha crónica vontade de aprender coisas novas tiveram e têm um benefício enorme. E em sede da Baptista conheci alguns dos melhores amigos que tenho até hoje e certamente hei de os ter para sempre, ainda que raramente estejamos juntos.

Depois de ter sido baptizado tive ainda outra grande prenda: a gestão democrática. A Igreja Baptista é provavelmente a organização mais democrática de que já tive o privilégio de fazer parte. Os membros contribuem com as ofertas, os dízimos e para fins específicos, mas têm o direito de participar nas decisões sobre o que fazer com os recursos. A prestação de contas é uma realidade consolidada. E ainda por cima trata-se de uma democracia pura, ao estilo da Grécia Clássica. Como as decisões nas igrejas da Convenção Baptista de Angola são tomadas de modo livre e independente em cada congregação, não há representantes. É democracia directa. As lideranças da Igreja ao nível provincial e nacional têm funções de coordenação e não de dar ordens hierarquicamente.

Toda essa incursão foi para reforçar a clareza do meu posicionamento em relação à diferença entre religião e espiritualidade. Quando praticadas adequadamente, as religiões podem ser um veículo de acesso a determinadas manifestações da espiritualidade. Mas não se confundem com esta, tão pouco têm com ela uma relação de consumpção. De facto, na sua acepção epistemológica religião vem de Relicare: voltar a ligar-se com o transcendental. Mas este sentido acabou degenerando-se no quadro actual. O sentido em que aqui abordamos a expressão vai já com um toque exegético de enquadramento face às práticas resultantes da aludida regeneração. Neste sentido religião seria o hábito social de ir à igreja. Alguns deles eventualmente seriam crentes ( no sentido de acreditarem efectivamente no Alto e procurar melhorar o seu ser, levando-o para cada vez mais próximo da luz, da paz, do bem e da evolução da alma), mas grande parte dos religiosos são hoje pessoas que vão à igreja porque têm esse costume, lá podem ver os amigos e ainda vendem a ilusão de que sejam pessoas do bem, sem ter qualquer intenção séria e consistente de viver o bem e fazer dele sua prática corrente.

É perfeitamente concebível a humanidade sem religião ou religiões. Mas ela jamais sobreviveria sem espiritualidade. Não é fácil explicar o que seria então a espiritualidade, nem seria boa ideia ter a pretensão de o fazer. Mas em termos simples poderá ser caracterizada como sendo a crença estável e sustentável de que a vida e o mundo estão de algum modo ligados a realidades transcendentais e na convicção de que fazemos parte de algo maior e mais importante do que o ego, prioritário em relação aos nossos interesses subjectivos, e mais valioso do que os entes individualmente considerados, sendo ainda mais valioso do que a hipotética soma total do valor dos indivíduos.

A paz, a liberdade, a igualdade e a justiça são elementos por via do qual grande parte das pessoas se dá conta da sua espiritualidade, independente do veículo que use. Esses valores são transcendentais. Também o é o próprio conceito de humanidade. Portanto, nem já podemos falar de humanidade se não considerarmos aspectos de ordem espiritual. No mínimo, o reconhecimento de que não existiriamos sem os nossos pais e que estes sucessivamente não existiriam sem os seus genitores, o que nos coloca na posição e condição de sermos mais um tijolo sobre o qual repousa a expectativa de que providencie e cuide para que outros tijolos se possam firmar com base em si. E existe a consciência de que o modo como desempenhamos esta função (de tijolo) deverá ditar se o edifício melhora e se consolida, ou se degenera e se deteriora.

Ora, quando pautamos a nossa vida e os nossos actos por valores transcendentais como a justiça e a igualdade, grande é a probabilidade de darmos uma contribuição positiva para o templo da humanidade.

Neste ponto parece claro que para sermos dados à espiritualidade não precisamos necessariamente passar antes pela religiosidade. Não deve ser necessário prometerem-nos a vida eterna ou nos ameaçarem com o castigo eterno para agirmos bem com os outros e exercitarmos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Pelo menos, não deveria ser necessário.

Bastaria que houvesse uma tomada de consciência sobre o carácter imprescindível da espiritualidade, independente de como se manifesta, desde que esta nos torne mais humanos. E tudo o que nos leva a sermos desumanos com os outros não pode de modo algum ser aceite como sendo de dimensão espiritual, uma vez que esta tende para a ordem e perenidade.

Como estamos hoje em termos de espiritualidade nos termos em que a tentámos ilustrar nesta reflexão? Estamos péssimos. Nem já as religiões (grande parte delas) estão alinhadas com os valores maiores que as fariam veículos de aproximação à espiritualidade. Muito piores estarão as instituições seculares.

Um dos mais chocantes casos talvez seja de Israel, que em nome da sobrevivência da sua nação entende ter o direito de extinguir a nação vizinha, sobre cujo território se instalou, numa partilha de desequilíbrio progressivo em cujos termos a outra parte pouco ou nada foi tida em conta.

E tudo porque houve o holocausto durante a II Guerra Mundial?!… E o que é afinal que podemos chamar a esses assassinatos de civis palestinianos. Guardadas as devidas diferenças, também é um holocausto. Tem diferença de grau e método, mas são actos com a mesma essência: tratar e matar o outro como se não fosse digno de ser tratado como humano. E isso por causa de questões de ordem genética e de crenças.

E issa maneira de ignorar por completo a individualidade e a especificidade do outro é juntamente consequência do relativismo exacerbado que resulta da ausência de espiritualidade e da sobreposição da nossa visão do mundo em relação à posição do outro neste mesmo mundo, que é de todos. Assim o foram as guerras santas, a inquisição, o tráfico de escravos, o colonialismo, os diferentes absolutismos, etc.

São corolários da incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro – porque unidos por algo maior e mais importante que ambos.

Vale a pena reflectir sobre essas questões. Vale a pena avaliarmos o modo como nos posicionamos em relação a esta dimensão do nosso ser e do nosso papel no mundo, quer o chamemos espiritualidade, humanidade ou qualquer outra coisa.

UBUNTU!…

Sempre,

António Kassoma “NGUVULU MAKATUKA”

 

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