Estrelas da bola projectadas pelo CAN

Luísa Rogério
06 de Janeiro, 2010

O Sudão, maior país africano, agora mundialmente famoso à custa da tragédia humana chamada Darfur, alberga, entre 10 e 16 de Fevereiro, a primeira edição da Taça de África das Nações. Descontando os factos e números que fizeram o acontecimento, poucos detalhes marcantes sobraram para a história. O mais relevante é a particularidade de se ter montado, a partir dali, um mosaico onde ganham realce as figuras que ajudam a mudar a face do continente.
Volvidos 53 anos, as alterações vão do formato à divulgação daquele que é o evento desportivo mais mediático de África. Com altos e baixos, com maior ou menor dificuldade, como diriam os jornalistas desportivos, de dois em dois anos, o futebol celebra a festa da “mãe África do futebol do futuro”.
O projectado futuro é cada vez mais real. Hoje, o futebol africano ultrapassa as suas fronteiras, os dramas e as metamorfoses gigantescas que vêm assolando este espaço geográfico. Em pouco mais de cinquenta anos, a África passou de terra de colonizados para um continente que, com todas as convulsões, guerras e catástrofes, busca os seus próprios caminhos.
Com a sofisticação dos meios de comunicação social, os desafios futebolísticos converteram-se em acontecimentos sociais. No início dos anos oitenta, a partir do CAN da Líbia, as transmissões da competição ganharam regularidade. Começaram a revelar-se jogadores que, mais do que ídolos, se converteram em heróis. Inspirados neles, jovens de várias gerações se auto renomearam e inúmeros pais baptizaram os filhos com nomes de estrelas projectadas pela competição.
Antes da magia da televisão, os craques chegavam até ao grande público através de publicações como a extinta revista Jeux D’Afrique. Abdul Razak, o eterno “golden boy” (rapaz de ouro) do Ghana é um dos produtos dos “memoráveis anos oitenta”. Companheiro de selecção de Ibrahim Sunday, Mohammed Polo ou Opoku Nti, foi melhor jogador do CAN-78, mas se recusou a jogar na Nigéria-80 e Líbia-82, retornando na edição seguinte.
O carismático Razak que defrontou o 1º de Maio de Benguela, ao serviço do Ashanti Kotoko de Kumasi, representou no final da carreira o Cosmos de Nova Iorque, por onde passaram, em épocas distintas, Pelé, Beckenbauer e Johan Cruyff.
Mesmo com esse rico palmarés, o “Golden Boy” não é tão conhecido das novas gerações, talvez por se ter notabilizado num período em que a força da mediatização decorrente da transmissão televisiva dos jogos ainda não se tinha manifestado.
Os “Black Star”, quatro vezes campeões de África, também tiveram entre as suas constelações Derek Boateng e Samuel Kuffour (quem não se lembra dele no Bayern de Munique?), John Mensah e Stephen Appiah. Igualmente do Ghana e colocado na lista da FIFA dos cem melhores futebolistas de todos os tempos, Abedi Pele é outra figura incontornável. Rivalizou com Youssouf Fofana no CAN 92, tem a frustração de nunca ter disputado a fase final de um Mundial, mas no ano findo o seu filho ofereceu-lhe uma espécie de redenção, com as cores do Ghana, a primeira africana a vencer o Mundial Sub-20.
O mesmo se pode dizer do lendário futebolista Jean Pierre Tokoto, que também alinhou no Cosmos de Nova Iorque, e de Manga Onguene, ambos dos Camarões. A fama projectou-os. Era, às vezes, difícil distinguir entre o real e o fictício quando se falava deles e de jogadores da linhagem do também indomável “Dr” Abega. Estamos a falar da época em que os clubes camaroneses Canon de Yaoundé e o rival Union de Doula abrilhantavam o sonho quimérico da maioria dos jogadores africanos. Antes, portanto, da riqueza arábica do Al Ahly do Egipto.
O CAN brindou-nos com talentos como o argelino Rabat Madjer, que se celebrizou no FC Porto, o seu compatriota Belloumi e Jules Bocandé, senegalês que deu um show à parte no CAN-92, um ano antes de terminar a sua carreira na Bélgica. No CAN-94 registou-se o renascimento de uma Nigéria que combinava força e estilo. Rachid Yekeni, Amunkike, Amokachi, o guarda-redes Peter Rufay e companhia são dessa fase. A prestação da renascida Zâmbia de Kakusha Bwalya, depois do acidente aéreo que vitimou quase toda a selecção do país vizinho, valorizou sobremaneira a consagração nigeriana. Nessa competição, o “nosso” Elijah Tana foi simplesmente considerado o melhor defesa central do continente. Chegou a fazer testes no então poderoso Olympique de Marseille de Basile Boli. Anos depois, os ventos da vida trouxeram-no ao Petro de Luanda. Em África, dizíamos, o futebol é muito mais do que um jogo. É factor de união. Alimenta a esperança de milhões de crianças e jovens com o destino traçado entre a delinquência e a indigência. Os seus protagonistas, aliás heróis, são vencedores com trajectórias dignas de roteiros cinematográficos. George Weah, o único futebolista a africano a ostentar o título de melhor jogador do mundo, outorgado pela FIFA, é um desses exemplos de vida. Oriundo de um país que virou manchete mundial pela vergonha da guerra, recusou-se a representar outras selecções quando estava no auge da carreira, motivou a Libéria e quase foi eleito chefe de Estado.
O que dizer de Roger Milla? Para muitos, é o melhor jogador africano de sempre. Aos 38 anos levou alegria, simpatia e ousadia aos estádios. Popularíssimo, sorriu quando atribuíram a sua vitalidade ao consumo de carne de macaco. O que importa é que inscreveu o seu nome com letras douradas entre os melhores futebolistas de todos os tempos e na História do Mundial.
O igualmente camaronês Thomas Nkono, cuja prestação fez jus, literalmente, ao termo guarda-redes, é outra figura lendária, provavelmente o único na sua posição, com argumentos para integrar o “top ten” continental. Kalusha Bwalya, o egípcio El Khatib, o nigeriano Jay Jay Okocha o maliano Salif Keita, que dizem ser sobrinho do cantor com o mesmo nome, e o marroquino Nouredine Naybet… Nomes grandes do futebol.
No ano do primeiro mundial em África, enquanto Hossan Hassam e Nwanko Kano passam o testemunho, Samuel Eto’o, Didier Drogba e Michel Essien escrevem a sua história. Seguidos de perto por uma lista sonante de desportistas que passeiam classe pelos estádios mais emblemáticos do mundo e enaltecem a nossa mãe África do futebol do presente.
Fonte: http://jornaldeangola.sapo.ao/19/0/estrelas_da_bola_projectadas_pelo_can

NOTA: NÃO PERCEBO POR QUE RAZÃO O JA CLASSIFICOU ESTE TEXTO COMO SENDO OPINIÃO, ESTÁ A OLHOS VISTOS QUE SE TRATA DE UMA ANALISE/PESQUISA SOBRE VÁRIOS CRAQUES “PARIDOS” PELA COMPETIÇÃO…

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Uma resposta a Estrelas da bola projectadas pelo CAN

  1. escelente artigo Luisa Rogério como sempre deixou boas impressoes

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