ÀS QUANTAS ANDA A MÚSICA?… REVIVENDO 2006

Reflexões difusas e incisivas a bordo de um Kandongueiro

 

Faltavam poucos minutos para as oito horas, quando cheguei à paragem de taxi junto do entroncamento em que termina a Rua Major Kanhangulo (ex-direita de Luanda) e começa a Rua Kima Kienda, próximo do Terminal de Cargas número dois, ao Porto de Luanda.

 

Enquanto engolia a seco a poeira que era projectada pelos camiões que por ali passavam, pensei rapidamente no significado do nome da rua Kima Kienda, expressão em kimbundu cujo equivalente na língua camoniana é “aquilo que anda”, e voltou a dominar o meu espírito a necessidade de, nos dias que corre, ter um Kima Kienda, de preferência com características automotoras e com quatro rodas.

 

Dei mais um gole de poeira cinzenta, rezando para que aparecesse rapidamente um taxi, ou, na melhor das hipóteses, passasse por lá o meu amigo António Cruz vindo da Cuca, ou o Orlando Ferreira, que reside na “cidade satélite” de Cacuaco.

 

Tempo depois apareceu um taxi, repleto de pessoas vindas de bairros como o Nguanyá, Ossos, São Pedro da Barra, Ngoma, Dimuka, a caminho do cumprimento de mais uma jornada de zunga e outras manifestações do negócio informal com o qual mantêm em funcionamento as suas cozinhas.

 

Ajeitei a gravata (até porque tinha um encontro que exigia um traje formal) e me dei por satisfeito com o lugar disponível na parte do carro que separava os assentos dos passageiros e o assento do motorista, vulgarmente denominado baúka, ou, mais carinhosamente, sala VIP.

 

 Enquanto o motorista efectuava a sua “arrancada” de marca, quase me projectando sobre a senhora que estava a minha frente, remeti o pensamento para os desafios intelectuais que o serviço me guardava na segunda-feira 29 de Maio, abstraindo-me da temperatura do motor do taxi, sobre o qual, em boa verdade, eu me encontrava sentado.

 

Pouco tempo depois chamou-me a atenção o facto de os passageiros daquele taxi estarem maioritariamente calados e introspectivos, ao som de “It must be love”, dos Roxette. Presumi que a maioria deles pudesse não estar a entender a letra da música cantada em inglês, mas todos davam mostras de sentir profundamente a música, enquanto linguagem universal, agravada pelo facto de aquele trecho reportar-se a uma outra realidade universalista – o amor.

 

“Isto só pode ser amor”, pensei eu, numa tentativa de interpretação do título da música que tocava. Fazíamo-nos à Marginal, com as suas palmeiras e o cheiro de amêndoa das águas algo poluídas da Baía de Luanda, quando aquela música foi substituída por “The Scientist” da banda britânica Coldplay, seguida do tema Yevelela o Kanjila, cantada por Alberto Teta Lando em 1974.

 

Chegados à Mutamba o motorista trocou a música pelo noticiário da Rádio 5, que em cadeia com a Rádio Luanda dava as últimas dicas sobre o Campeonato Mundial de Futebol, Alemanha 2006. O Carro havia chegado ao seu término, mas a maioria dos passageiros, sobretudo do sexo masculino, não pareciam dar muitos sinais de querer descer do Hiace azul e branco, atentos às notícias relativas à preparação dos Palanca Negra (designação oficial da Selecção Angolana de Fotebol).

 

Depois de o cobrador (ou financeiro, como alguns preferem ser chamados) anunciar que a corrida havia chegado ao fim, fomos deixando o taxi, algo contrariados.

 

Esta cena recordou-me outra contada pela minha mãe:  Nos tempos em que a companhia de transporte urbano “Tura”  tinha ar condicionado e rádio em quase todos os seus  autocarros, ela havia passado a paragem em que pretendia descer, hipnotizada pelo conforto do autocarro, em contraste com o calor que em Abril toma conta da cidade.

 

Voltando à vaca fria (antes que ela aqueça), aquela viagem de taxi lembrou-me que duas semanas antes o Pandy Santana, um amigo daqueles que nos dão muitas ideias brilhantes, sugeriu-me que fizesse um trabalho sobre “O sucesso dos taxistas”, referindo-se àquelas músicas que são muito ouvidas nos taxis mas não tocam nas rádios, a maioria das quais por conterem letras repletas de insultos e outros atentados aos bons costumes.

 

Por curioso que possa parecer, a pauta deste trabalho estava a correr o risco de “furar” por falta de matérias prima. Depois de ter “segredado” a ideia ao editor deste caderno, pus-me a circular por várias rotas de taxi para ouvir as músicas que actualmente eles tocam e reparei que havia uma pequena alteração da constância musical predominante nestes meios de transporte.

 

Embora continuem a ser os principais e iniciais consumidores de músicas “pouco ortodoxas”, a maior parte da qual produzida por gente jovem, os taxis tendem a servir também os seus passageiros com as músicas oferecidas pelo canal musical da Rádio Nacional de Angola “ a 96.5 FM Stereo” e pela Rádio Escola, que também tem as suas emissões dominadas por música.

 

Para além dessas e das outras rádios, que tendem a substituir as músicas dos disparates nos táxis, a viagem com que começamos este texto alertou-me para um outro fenómeno que contribuir para a alteração dos gostos musicais nos taxis e na sociedade de um modo geral. Sem prejuízo dos direitos autorais e do carácter criminoso desta prática, a reprodução e venda a baixo preço de selecções de músicas nacionais e internacionais ajudou a massificar a música qualidade. Esta massificação acabou por se reflectir na qualidade de música que os taxistas e os cobradores põem a tocar nos seus carros.

 

Nos dias de hoje, podem ser compradas selecções de músicas românticas, kizombas, sembas da actualidade, zouk dos anos oitenta e outras selecções que estão disponíveis no mercado do Roque Santeiro, nos locais de habitual congestionamento do trânsito, nas bombas de combustível e em muitas esquinas da cidade. As pessoas de poucos recursos financeiros optam frequentemente por comprar esses discos e colectâneas (piratas), em vez de comprar os seus discos nas casas de música oficiais.

 

Dizia eu (como gostam de falar os políticos quando querem citar as suas próprias pessoas), a realidade está diferente da altura em que músicas de carga fortemente obscena forçavam a intervenção de organizações femininas. Porém, há temas muitos musicais do estilo Ku duro e Taraxinha que continuam a ter como palcos preferidos os taxis e não é propriamente uma raridade a existência de estrofes temperadas com bastante picante em músicas deste estilo.

 

Afinal, sempre se colocam as inquietações do Pandy Santana. O que fazer para fazer desaparecer este tipo de músicas? São músicas de tal sorte ousadas que é quase impossível um filho não se constranger se estiver a ouvi-la  ao lado de sua mãe, ou um pai não se constranger se estiver em companhia da sua filha (viajando num taxi) e de repente o taxista decidir colocar a picante música a tocar.

 

Para agravar a situação, cenas desta natureza são muitas vezes seguidas de actos de violência verbal dos cobradores para com os clientes que protestam contra a música.

Quais serão as músicas dominantes nos taxis quando o mundial tiver terminado e tiver diminuído a frequência com que se ouve a Rádio 5 nos dias que correm? Serão as rádios musicais suficientes para que se inverta o gosto por músicas socialmente pouco recomendáveis? Como tornar música de qualidade acessível a todos sem que tal feito seja catalisado por práticas perniciosas como é a pirataria.

 

Atacando o mal pela raiz, não haverá uma maneira de se controlar a letra das músicas que são tornadas públicas em Angola? Certa vez, em conversa com um taxista a propósito deste tipo de música, o mesmo disse ser menos frequente os taxis tocarem músicas demasiado ousadas na sua rota porque a polícia frequentemente prende os Kandogueiros que assim procedem. Será este o caminho por que deverão seguir as autoridades competentes?…

 

Este assunto parece revestir-se de grande importância, na medida em que, mais do que um meio de diversão, enquanto manifestação cultural,  a música é também um meio de transmissão de valores ou desvalores sociais. Certamente não está completamente esquecida a cena de um adolescente dos Estados Unidos da América que matou o professor e os colegas, inspirado pela letra de uma música rock super radical.

 

Estas e outras questões desafiam-nos a mais desenvolvimentos em próximas edições, mas fica desde já lançado o repto para que sociólogos, psicólogos e outros especialistas se pronunciem sobre as inquietações que partilhamos convosco neste Sábado. Até mais, companheiros.

 

Sempre,

António Kassoma "NGUVULU MAKATUKA"*

 

 

(*) Matéria publicada no Caderno de fim de Semana do Jornal de Angola

Esta entrada foi publicada em Cultura. ligação permanente.

Uma resposta a ÀS QUANTAS ANDA A MÚSICA?… REVIVENDO 2006

  1. Njolela diz:

    Tens uma maneira muito especial de escrever os teus artigos. Dá para perceber que escreves com a alma e o coração, eu gosto. Amanhã e com mais calma vou descrever cada uma das figuras de estilo que usaste e identifiquei.O assunto é actual e de extrema importância. Eu já tive que abandonar um táxi por causa da música obscena que estava a tocar e que o taxista não queria mudar. O pior de tudo isso é que os passageiros são de diferentes faixas etárias, desde os mais novos aos mais velhos e a música é também uma forma de educação e informação. Uma das maneiras de combater esse crime (porque também é crime) e/ou cortar o mal pela raiz é procurar a origem da música, quem canta, quem grava e quem reproduz procurar soluções.Como sabes, gosto de ouvir e sentir a música, daquelas músicas que a gente escuta a melodia, cadência, entende e analisa a letra e por fim sorri ou chora de emoção. Música bem feita é boa de se ouvir e faz bem a saúde.Keep it up.

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