A SAGA SOFREDORA DE UM MWANGOLÉ, na pena de Nguimba Ngola

 

Uma indescritível crónica sobre a luta pela vida

– Porque estou a vender esses sacos? Então vou comer o quê, vou roubar? Mas o kota, ainda essa tua pergunta me deixa mais triste do que a vida me faz. Olha, o kota ainda está bem da vida. Dá para ver a tua barriga a brilhar de tanta mordomia. Eu, deixa só. É só o Deus mesmo que me está já aguentar. Saio quando o sol ainda está a dormir seu sono de rei e eu, um coitado caga na lata, amarrotado de alma tenho de vir aqui com os meus sacos de plásticos e tentar a sorte de ver nos meus bolsos uns míseros kwanzas pra jantar. Estás a ver kota, é uma vida de muita frustração, por isso podes pagar a birra a vontade, ainda tento esquecer lá um poquito só essa miséria de vida. Mas mesmo a frustração, a miséria, esses mambos mesmos, são teimosos. Ainda posso beber lá mas vem outra vez nas calmas me fazer barulho nos ouvidos. Ainda a senhora lá em casa, não ela também foi na zunga mesmo, vamos chegar logo e ver quem fez mais kwanzas e ai vamos juntar já e comprar lá qualquera coisa pra jantar. Sabes, é muito sofrimento, é indis quê? Possa essa palavra dos dicionários está difícil de dizer.
– Indescritível.
– É isso mesmo kota, tipo custa dizer. Então agora escuta só mais essa. A minha mulher ontem vem me dizer que a zunga está dar pouco é melhor só mesmo sair também a noite com as outras e fazer os coisos, negociar lá a mbunda. Filha da puta. Eu quase que lhe atirei o rádio que estava na mão mas, prontos engolí mesmo só e depois estamos no mês das mulheres. Não quero ir preso. Mas ela me atirou mesmo de uma forma dura. Agora estou aqui a pensar se ela ainda não começou já a fazer isso. Ultimamente anda a chegar tarde, tarde mesmo. Mas ainda me diz só lá uma coisa. A tal rádio que tinha na mão e que estava quase a atirar na minha mulher, estão lá a falar que um Anjo Mau anda a partir as casas dos pobres na Huíla. Essa é uma maka grande. Eu estava também numa zona aí e o governo me tirou de lá e me deu tenda no Zango, agora a tal tenda também já toda rota e a chuva está a cair que chega. Eu só te pergunto uma coisa. Nós o povo temos mesmo algum valor nesse país? Somos cidadãos ou somos mbora qualquer coisa assim só mesmo. Está certo que querem construir linha do comboio e mas quê também sei lá e os olhos a brilhar porque vão ganhar lá mais dinheiro ainda pra comprar mais jeep, e nós, não era mais correcto construir umas casa assim lá mais ou menos e depois nos tiram? O governo não pode fazer bué de nova vida? Agora no nova vida as casas dão nas pessoas que já tem bué de casa, aka. Olha só kota, essa foto que você tirou é mesmo pra ir mostrar lá minha cara. Eu também quero boa vida tipo a tua. Agora paga lá mais umas birras pra eu ir mbora e deixa dessa tua vida com as mulheres. Assim vai ficar um kota só atoa, mulherengo, adúltero, essa palavra é mais bonita tipo da igreja. Vai lá no vosso governo e resolver os problemas do povo e fala mesmo que o Ndengue Fudido está muito triste com as coisas que andam a acontecer nesses país, agora já na 3ª república. Tipo vamos chegar na república 12 e condições de vida melhor nada. Kota vou bazar dá aí só uns kwanzita e a dama também já vai ver que vendi lá qulquera coisa mais ou meno.
– Até já Ndengue, olha vê se cuidas o que falas ok, não te metas aí a falar políticas.
Ele foi entregue ao seu sofrimento e, a cerveja a borbulhar no seu cérebro, ora pintando a dor, ora pintado pensamentos alegres e soltava sorrisos tímidos. O kota enfiou as kilumbas no jeep e seguiu com umas das meninas a apreciar a foto do Ndengue e revivia seu drama, quanto vou ganhar hoje? Quanto é que o kota vai nos pagar? Até quando andaremos nessa vida? É indescritível
 
BY: Nguimba Ngola
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2 respostas a A SAGA SOFREDORA DE UM MWANGOLÉ, na pena de Nguimba Ngola

  1. augusto diz:

    Xi minino não fala a politica: dizia o cantor.Já passamos em Portugal e nesse Portugal eu incluo Angola(agora um país independente.) Estamos perante um texto cheio de mensagens, e porra de facto só com umas "Cucas" conseguimos aqui como aí aguentar a situação.

  2. Alpha diz:

    Meu caro amigo, confesso-lhe que demorei, a contragosto, para comentar este texto. Contribuíram para isso:- o fato de eu ter adoecido (estou com um forte resfriado que mina minhas forças e me desvia do que preciso e gosto de fazer);- assolar-me um certo receio em estar me imiscuindo em assuntos locais;- a dificuldade de compreensão de muitos dos termos utilizados.Fenômeno interessante me aconteceu: a cada melhora no meu estado de saúde, meu primeiro pensamento era vir aqui…Depois racionalizei no argumento dois : Sou uma livre pensadora e Angola é um país regido por uma Constituição que me assegura direito de expressão, muito parecidos somos nós – Brasil e Angola! E, em terceiro lugar, sabe, caríssimo?, dei-me conta ao ler este texto de que entendo sim esta linguagem! E sabe porque? Porque ela, para além das palavras, intui-se visualmente!Tentando entender o texto, deparei-me com o fato de que este é um problema típico das grandes cidades, dos maus governos, da distância abissal e incômoda dos incluídos e dos excluídos sociais… Angola e particularmente Luanda (perdoe-me e releve se estiver a falar bobagens) tem crescido e se impondo a uma velocidade vertiginosa. Há um fenômeno muito comum nas cidades e países que crescem assim: há um contingente de pessoas que, ao buscar melhores condições de vida, anulam-na e marginalizam-se neste próprio ideal de vida que imaginaram… Nesta inumana condição de vida tais marginalizados sobrevivem com os restos daquilo que endeusam… sobrevivem na crítica, no modo subversivo ou conservador de suas origens… e talvez, nessa verdadeira luta pela sobrevivência – já agora de si, singular – , a palavra de ordem seja viver: qualquer trabalho serve… e às vezes, até mesmo podem-se questionar certos valores morais… Na luta pela sobrevivência, da qual temos nós, notícias de longe, às vezes é necessário, correto negociar a “mbunda”… mesmo que a consciência e o corpo avise que isso não “está certo”, a necessidade se impõe e depois …ah, depois a consciência e o corpo fazem as pazes, porque os fins justificam os meios…Algo sobra neste “Ndengue fudido”, aliás, abunda: a consciência de estar sendo “fudido” (desculpe) e uma lucidez de dar inveja a muitos. E em sua impotência e cansaço pede que o vejam como realmente é… e não no que se tornou.Em seu linguajar simples, corrompido existe tanta verdade…tanta solução: ele fala de impacto social, da ausência de infra- estrutura nas obras das cidades, da supervalorização da fachada capitalista que gera lucros ao empresário e miséria ao empregado, ele fala da fome de pão que mate a fome do corpo e da fome de cidadão que espera, confia e vota em um representante dos seus anseios…Sintomática é a fala: “Vai lá no vosso governo e resolver os problemas do povo e fala mesmo que o Ndengue Fudido está muito triste com as coisas que andam a acontecer nesses país, agora já na 3ª república. Tipo vamos chegar na república 12 e condições de vida melhor nada”. Vejo aqui uma separação entre o cidadão que se sente consciente mas desesperançado: sua voz já não tem mais peso; é preciso lançar mão da voz de outrem …quiçá se fará ouvir por lá, se não lhe acharem ridículo, manchete bizarra…bêbado célebre por um dia… nos demais dias resta o consolo das “bolhas a borbulharem no seu cérebro”…Como lhe disse, não entendo bem a questão das desapropriações , essas milhares que aconteceram. Mas sempre procurei entender de algo: gente. E penso, não me esquecendo de que estou a “meter o nariz onde não fui chamada”, que os governantes deveriam sempre colocar o povo em primeiro lugar, que todas as ações públicas deveriam ter por base a prioridade do bem estar social, da dignidade do homem… A fachada externa, a vitrine das obras deveria ser colocada em segundo plano.E para falar a verdade, penso também que nenhuma riqueza externa sobrevive à pauperidade daqueles que a extraem… O povo, de onde saem os governantes, não é tolo, como imaginam estes assim que chegam ao Poder… Mesmo que existam golpes de estado, que aconteçam períodos negros de abuso de poder, sempre existirão Ndengues fudidos a escancararem o incorreto. E mesmo que não se dêem conta disso, o próprio exemplo de aberração – que incomoda no perfeito que se insinua nas propagandas – serve de mote aos novos pensadores e inquiridores para que se repense o injusto.Identifiquei na fala do Ndengue fudido uma fala encontrada em todos os cantos do mundo: a dos excluídos, como disse. Revi em meu próprio País a saga de inúmeros sertanejos, nordestinos, enfim, pessoas que, seduzidas pelo brilho da cidade, deixaram suas vidas no campo (onde o descaso dos governantes contribuiu para sua expulsão) para tentar a dignidade de um bem viver, mesmo que modesto.Lembrei-me de um ilustre compositor, já falecido: Adoniran Barbosa (1910-1982). Não sei se o conhecem por aí. Pois bem, Adoniran compôs algumas músicas numa fala propositalmente “incorreta”; expressava-se ele com o linguajar dos iletrados, digamos, quase como o Ndengue fudido. E nessa sua fala quanta sabedoria e denúncia! Como o Ndengue fudido. Deixo com você e seus leitores uma amostra e os links para as versões musicadas no Youtube.Parabéns, caríssimo. Seu trabalho na rede é deveras importante e necessário. Sinto-me bastante orgulhosa em poder contribuir com meus modestos comentários à sua nobre causa. Um sincero e fraternal abraço.Despejo na favela(Adoniran Barbosa)Quando o oficial de justiça chegouLá na favelaE contra o seu desejoEntregou pra seu NarcisoUm aviso, uma ordem de despejoAssinada "Seu Doutor"Assim dizia a petição:"Dentro de dez dias quero a favela vaziaE os barracos todos no chão"É uma ordem superiorô, ô, ô, ô, meu senhorÉ uma ordem superiorNão tem nada não, seu doutorNão tem nada nãoAmanhã mesmo vou deixar meu barracãoNão tem nada nãoVou sair daquiPra não ouvir o ronco do tratorPra mim não tem problemaEm qualquer canto eu me arrumoDe qualquer jeito eu me ajeitoDepois, o que eu tenho é tão poucoMinha mudança é tão pequenaQue cabe no bolso de trásMas essa gente aíComo é que faz?ô, ô, ô, ô, meu senhorEssa gente aíComo é que faz?http://www.youtube.com/watch?v=4jAPmGJB5QkSAUDOSA MALOCA (Adoniran Barbosa)Si o senhor não tá lembradoDá licença de contáQue aqui onde agora estáEsse edifício artoEra uma casa véiaUm palacete assobradadoFoi aqui seu moçoQue eu, Mato Grosso e o JocaConstruimos nossa malocaMais, um dianois nem pode se alembráVeio os home cas ferramentasO dono mandô derrubáPeguemos tudo as nossas coisaE fumos pro meio da ruaPreciá a demoliçãoQue tristeza que nóis sentiaCada táuba que caíaDuia no coraçãoMato Grosso quis gritáMas em cima eu falei:Os homi tá cá razãoNós arranja outro lugáSó se conformemos quando o Joca falou:"Deus dá o frio conforme o cobertô"E hoje nóis pega a páia nas grama do jardimE prá esquecê nóis cantemos assim:Saudosa maloca, maloca querida,Que dim donde nóis passemos dias feliz de nossa vidahttp://www.youtube.com/watch?v=Mbr84hqawaQ&feature=related

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