NEW ORLEANS REENCONTRA COSTELA AFRICANA EM LUANDA

Nicholas Payton quartet

Angolano Jean Francó empresta espírito Bakongo ao jazz da banda americana

Vinte
horas e trinta minutos. Com uma pontualidade perfeccionista – estado
para que tende a música – começava na sala Luanda do Hotel trópico o
espectáculo do Nicholas Payton quartet, um grupo de Jazz vindo
directamente de New Orleans, localidade dos Estados Unidos da América
em que esse estilo de música brotou, da dor e sofrimento da população
negra
. O Jazz é por muitos
encarado como sendo um dos mais visíveis símbolos do estilo americano
de vida, tal como as calças Jeans e os refrigerantes coca-cola.

Com
Nicholas Payton no trompete, Aaron Golberg no piano, Reginald Veal no
contrabaixo e Adonis Rose na bateria, a actuação do quarteto, baptizado
com o nome do seu líder, foi aguardada com muita expectativa em Luanda.
Pelo historial musical dos integrantes, era de antever que haveria Jazz
no calor da noite novembrina, tal como os promotores prometeram
publicamente, ao denominar o seu programa “Jazz quente na noite”.

O
que os apreciadores não contavam era com a aparição de Jean Francó,
percurssionista angolano, que fazendo aquilo a que denominou “Jazz Made
in Angola” deu ao espectáculo um toque diferente. O seu batuque ecoava
pela sala como se quisesse apagar o tempo e a distância que separou os
negros norte americanos de África, terra em que se a redita manter-se
conservado o mesmo espírito musical que, há séculos, os escravos
transportaram para as américas.

Coube
a Jean Francó a abertura do espectáculo, que foi apresentado por
Jerónimo Belo e Laurinda Santos. Preparando o apetite melódico dos
presentes para o que a noite ainda tinha para oferecer, o
percurssionista angolano extraiu dos seus instrumentos uma infinidade
de sons, acompanhados por palavras ditas em línguas africanas – maxime
em kikongo. Bastante aplaudido pelo público, Jean Francó foi alternando
sons calmos e relaxantes com calientes batucadas acompanhadas de fortes
gritos, até ceder lugar para os donos da noite, os Nicholas Payton
quartet.

A
noite foi abruptamente invadida por sons fortes e que falavam fundo à
alma. A música do quarteto, habilmente liderado trompete de Nicholas,
levou o público a um tal estado de espiritualidade, que deixava
eminente a possibilidade de um dos presentes entrar em transe.

Das
9 até bem próximo das 10 e meia da noite, as músicas seguiram-se umas
atrás das outras… O trompete, o piano, o contrabaixo e a bateria do
quarteto fundiam-se numa harmonia sonora ardentemente vivida pelo
público. Nem sempre era possível perceber o título das músicas – dito
no rápido inglês americano –, debilidade amplamente compensada pela
perfeita comunicação musical estabelecida entre os artistas e o público.

A
meio do espectáculo, chamou a atenção dos presentes, a interpretação de
“Kianda song”, música de Aaron Golberg dedicada à capital angolana,
Luanda, também conhecida por “cidade da Kianda”, numa homenagem à
figura da mitologia Axiluanda (povos nativos de Luanda) correspondente
à figura ocidental da sereia. Golberg é o único integrante do grupo
nascido fora de New Orleans. Natural de Huston, é a terceira vez que o
artista vem ao país de Ngola Kiluanji.

Quando
já o quarteto abandonava o palco, o público suplicou para que tocassem
mais uma música. O regresso foi explosivo. Os Nicholas Payton quartet
voltaram ao palco acompanhados de Jean Francó, que com o seu batuque
reforçou a alma da música executada pelo quarteto. Num casamento
perfeito entre a tradição e a modernidade, Francó juntou o seu batuque
aos instrumentos do grupo, levando o público ao delírio. Terminava,
assim, o “Jazz quente na noite”.

Esse
estilo de música, que nos anos vinte constituiu a maior manifestação
cultural da jovem nação americana, brotou do suor sofrido daqueles cujo
sacrifício determinou grandemente a sua formação, os escravos. Cantar e
dançar era a forma deles manterem viva a alma, mesmo quando as
condições existenciais eram das mais difíceis que se possa imaginar.
Assim nasceu o que hoje chamamos Jazz.

Embora
seja uma criação do povo negro, o Jazz é para todos os povos e raças.
Também considerada a mãe de todas as músicas modernas, é apreciada e
tocada por gente de todo o globo. Com Aaron Golberg, o pianista do
quarteto, que é caucasiano, uma verdade voltou a ser demonstrada: a
musical Jazz não é uma exclusividade de algum povo ou raça. É uma
característica de qualquer ser humano que tenha suficiente
sensibilidade musical

António Kassoma “Nguvulu Makatuka”

(*) Publicado no Jornal de Angola aos 25 de Novembro de 2003.

Esta entrada foi publicada em Música. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s