ONDE A FÉ E O FEITIÇO SE CONFUNDEM

NOSSA SENHORA DA MUXIMA

Construída há quase quatro séculos, o templo situado na província do Bengo continua a atrair milhares de peregrinos todos os anos

A capela da Nossa Senhora da Muxima é dos lugares de Angola
em que fica bem evidenciado o lado espiritual de África de dos africanos. Conta
a lenda popular que ela surgiu repentinamente, por obra de um milagre de Santa
Maria, que terá tido duas aparições no local na primeira metade do século VXII.
Desde então o local tem sido um dos pontos preferenciais de muitos crentes, a
maioria dos quais católicos.

Relata o padre local, o mexicano Mário Torrez, que o povo
acredita não só no poder contido na capela, mas em toda a área circundante.
Muxima (coração em Kimbundu) é uma zona de forte tradição de magia e bruxaria,
pelo que o “surgimento milagroso da 
capela” terá sido uma demonstração de poder de Maria sobre as outras
"poderosas senhoras" da área.

Pouco clara é igualmente a versão oficiais sobre a potencia colonial que edificou a capela e o forte situado naquela localidade do município
da Kissama, província do Bengo. Determinados estudiosos atribuem a edificação da capela e do forte
aos holandeses – na época em que ocuparam parte do território que hoje constitui Angola -, enquanto a grande maioria
destes acredita ter sido uma obra dos colonos portugueses.

A segunda tese é sustentada pelo facto de a Holanda não ter
tradição católica, e por terem dominado a zona por pouco tempo (cerca de 5
anos) os territórios de  Ngola.
Acresce-se ainda o facto de o forte, localizado no morro ao lado da igreja,
apresentar um estilo típico português.

É igualmente curioso o facto de a potência dominadora (tenha
sido Portugal ou a Holanda) ter
resolvido edificar um templo num local de tão difícil a cesso, e a vários
quilómetros da costa, numa altura em que a ocupação da colónia restringia-se à
orla marítima. Este facto alimenta a suspeita de que o local já fosse considerado
sagrado pelos autóctone, muito antes da edificação do templo dedicado à Nossa Senhora da Muxima.

Assim, os colonizadores terão edificado o templo católico
sobre o local sagrado dos povos locais, como forma de mostrar o seu poder e
submete-los psicologicamente. Com efeito, a dominação dos locais de culto de um povo tem
sido uma técnica de submissão colonial usada por várias potências
imperialistas ao longo da história da humanidade.

No meio de  toda essa
amálgama de lendas, milagres, mistérios e contradições, desde 1645 –  e quiçá muito antes –  que Muxima tem chamado a si corações de
milhares de pessoas que junto dela falam das sua preocupações, angústias e
desejos. Muita gente vai à "Mamã Muxima" na esperança de que esta resolva
problemas de saúde que a ciência não tenha eventualmente conseguido debelar, outros vão pedir
que os traga dinheiro e os livre da pobreza em que vivem…  não raramente,
pessoas há que vão à Muxima para entregá-la a vida de alguém.

Um desses milhares de peregrinos é Carlos Alberto Gil
“Beto”, (em Outubro de 2003) que se deslocou de Portugal à Angola com o exclusivo propósito de
efectuar uma peregrinação a pé de até Muxima. Nos dois primeiros dias da sua peregrinação, Beto efectuou uma jornada de 25 quilómetros, no
segundo dia andou 40
quilómetros, tendo alcançado Muxima ao meio da manhã do
quarto dia da Caminhada.

O peregrino andava das seis da manhã até ao anoitecer, e
conta ter sido muito bem recebido e acarinhado pelo povo das vilas e aldeias
por que passou. O seu sonho é que, tal como ele, muitos outros peregrinos
venham a Angola para encher o coração na Muxima, que ele considera o altar de
África.

Carlos Gil entende que a Muxima seja um local com muita
força e poder, para o qual deviam se deslocar não só peregrinos católicos como
não católicos, sejam eles angolanos ou estrangeiro; almeja que “Muxima entre
para a rota internacional dos peregrinos”. Beto, que nasceu em Angola,
confessou-se maravilhado com a beleza da paisagem circundante à área e declarou
ter alcançado o bem espiritual que almejava com a peregrinação à Muxima.

 No local, foi possível testemunhar o mistérios que envolve aquele lugar.
A religião e a tradição fundem-se de modo quase imperceptível.
Muitos crentes, maioritariamente do sexo feminino, encontravam-se prostrados no
templo e no forte, conversando com a Mamã Muxima ou sussurrando baixinho os
seus pedidos. Há ainda quem estivesse a cobrar em voz alta a realização do seu
desejo ou que optasse por escrever as suas pretensões e colocá-las sob uma vela
acesa.

 Enfim, um local que desperta em nós as mais estranhas
emoções e sensações

António Kassoma "Nguvulu Makatuka"

Texto publicado no Jornal de Angola  aos 15/10/2003

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