Dia 6 de Julho de 2013. Foi um Sábado diferente. Tenho tentado cultivar o hábito de não usar carro próprio ao fim de semana, usufruindo da liberdade de andar a pé ou usar o metro de superfície da super companhia Kandongueiro & Co. Tinha um encontro de trabalho para o meio da manhã que entretanto acabou sendo posposto para o início da tarde. Dei por mim no casco urbano, sem rumo nem destino. Parece que era mesmo isso que a alma estava a precisar, depois de uma noite mal dormida por conta da música da festa do vizinho – que de tão alta e potente chegava a activar o alarme do carro, como se já não bastasse a maldição de ter de estar fadado a competir com Arquimedes, na busca e manutenção de equilíbrio entre os encargos pessoais e a sempre alvo-negra-derrapante liquidez. A verdade é que fez muito bem andar sem destino fazendo gosto ao pé. No processo, fiquei pouco mais de uma hora na Praça da Independência. Poderia estar a admirar MANGUXI mas o banco que estava livre ficava do lado de trás do Guia Imortal e essa não era propriamente a mais poética ou patriótica dimensão do pai de RENÚNCIA IMPOSSÍVEL. Assim fiquei curtindo o atrito do vácuo gerado no meu interior, desligado de todas as malambas, fazendo amor com as diferentes partes que fazem o todo do meu ser pessoal, deixando o interpessoal hibernar. Foi muito bom e gratificante celebrar o prazer das coisas simples. Ter um tempo para fazer com que o cerne e o âmago se abracem em silêncio. De súbito fui interrompido pelo repórter que habita em mim. Ele chamou a atenção para a senhora que rastejava em direcção aos carros sempre que o sinal fechava. De onde estava dava para perceber que as pernas.cuidadosamente cobertas pela saia longa e por um pano aparentam estar aptas para caminhar. Pelo menos, não fui capaz de ver qualquer sinal de atrofiamento muscular gerado pela inacção a que elas estariam votadas caso a senhora fosse mesmo paralítica. Alguns dos automobilistas foram deixando cair notas de baixo valor facial e lá se arrastava a senhora para recolher. A dado momento apareceu um rapaz vendendo picolé. A senhora pediu que parasse e aguardasse alguns minutos até que mais algumas ofertas a permitissem pagar três daqueles gelado, ricos em proteínas por conta do leite e do açúcar. O jovem acedeu ao pedido. Minutos depois estava completo o dinheiro. Pagou e recebeu os três picolés. Deu um à filha que aparentava ter pouco mais de dois anos e outro à filha adolescente que cuida da bebé enquanto a mãe fazia o seu trabalho de atriz – sempre interpretando a personagem da deficiente desamparada que clama por compaixão. Desliguei a ficha do teimoso repórter. Aí fui interrompido pelo filho. Por sugestão dele liguei à minha mãe apenas para dar um beijos dizer que – pelo menos naquele momento – estava óptimo. Já que tinha o telefone engatilhado, liguei para duas pessoas amigas com as quais não falava há algum tempo. Nos dois casos fui atendido pelos filhos, já com voz grossa. Depois de me identificar os miúdos mudaram ligeiramente a voz. “Ah… Tio”. Deixei o lugar e ainda pude passar pelo parque adjacente ao largo, onde cantores que desconheço vendiam os seus discos. Já de saída, vejo uma coletânea de música angolana da década de 60 e 70 designada “Angola-saudade” ( se não estiver em erro). Pego um dos discos para conferir as canções. Muito boas, de facto. Confiro os cantores e rapidamente vejo um padrão. Concluo que a colectânea deveria assumir-se como música urbana de Luanda, Luanda saudades ou algo nesse sentido. Assim a epígrafe estaria de acordo com o corpo da obra. Nem já TETA LANDO consegui divisar na obra, muito menos CININA ou outras vozes dessa diversa Angola, demasiadas vezes confundida e reduzida à sua capital, povos, gentes e manifestações culturais da ngimbi. Não comprei o disco porque concluí que já tinha aquelas músicas e mais outras. Ou Seja, a minha colectânea é mais completa e equilibrada. Prometi ouvir logo que possível a obra com que TETA LANDO ganhou importantes prémios em 1974, que me foi ofertadas pelo companheiro HONORATO, grande apreciador de música boa e boa música. Iria começar a ouvir o disco de TETA LANDO pelo tema “Yevelela o kanjila”. Muito bonito. Os outros também são excelentes, um dos quais é hoje herança comum da nação, como a obra amiúde interpretada por outros honrosos filhos dessa mátria sob o título “o assobio meu”. Lá saí e me fui. Outras coisas ocorreram, como é evidente. Mas vamos deixar por aqui este diário de bordo, com o retomar das palavras iniciais. SÁBADO DIFERENTE. Celebração da vida a custo zero.
Ao Dispor,
@ MAKATUKA
Nota: texto originalmente publicado no nosso Onjango Cibernético, em sede do Facebook
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