Setembro, YOLELI

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Agosto despede-se enquanto Setembro espreita já adiante. É tímido, por isso esconde-se por trás de uma palmeira, que se mexe toda. Meio devido às côcegas involuntárias que lhe faz Setembro ao tentar usa-la como escudo, meio devido ao facto de mal conter a alegria pela chegada da época balnear – mui apreciada pelos axiluanda, entre originais e contra-feitos (tipo este tipo aqui). O novo mês faz um esforço sincero para se esconder, mas a palmeira não dá conta das suas medidas. Talvez uma mulemba fosse mais apropriada. Ademais, na mulemba caberia mais do que um mês. Caberiam todos eles, com a condição de se sentarem em círculo de mãos dadas, dizendo cada um o que é de sua justiça, enquanto os outros ouvem atenta e activamente, até que chegue a sua vez. Por mais que se tente esconder, Setembro é de tal sorte grande que já o podemos divisar. É o mês de heróis públicos e consolidados como MANGUXI, mas também é o mês de heróis privados e ainda com um longo caminho pela frente. Por exemplo, é o mês da WETU YOLELI. Sim. É a amiga do pai dela e a princesa do sorriso, mas também é uma heroína apesar de muito nova. Nasceu com sete meses e virou-se bem, com a graça de Deus. Parece estranho, mas por vezes nascer e sobreviver já é um feito heróico – sobretudo tendo em conta o que é relatado diariamente sobre as nossas (públicas) maternidades. Setembro é também o mês do WAMBU, cidade que precisa resgatar a essência da vida que já foi seu nome. Não gosto nem me identifico com o medo e a desconfiança que sinto ver no olhar dos seus munícipes. Paranóia de filho pródigo?… Para não ousar responder a isso, recorro rapidamente ao calendário para fazer uma cábula relativa aos amigos que nasceram em Setembro. Inexperiência de quem se tenta iniciar nessas práticas demasiado tarde, não consigo anotar nenhum deles. Para dizer a verdade, opto por não mencionar os seus nomes. Mas vejo que são uns quantos e são bons. Peço que aceitem o meu abraço silencioso e sincero. E saibam que é sinceridade é sem $. Para não alegarem que nada disse a propósito e em homenagem a Setembro, apesar do tanto acima-falado, cá vai uma (roubada algures) em jeito de boas vindas ao mês (também) dos heróis anónimo do dia-a-dia: ” DESCONHEÇO FACTO MAIS ENCORAJADOR QUE A HABILIDADE INQUESTIONÁVEL DO HOMEM PARA MELHORAR A SUA VIDA ATRAVÉS DO ESFORÇO CONSCIENTE” – Henry D. Thoreau
Nguvuku Makatuka 

(Originalmente publicado no Facebook aos 26 de Agosto de 2013).

 

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SOBRE A QUESTÃO DA EMIGRAÇÃO DE ÁFRICA PARA A EUROPA

Esta questão continua dura e dolorosamente actual

CONFLECTIR com Nguvulu Makatuka

. São daqueles textos cujas ideias são tão directas que vale a pena reflectir sobre ele, mesmo quando os recebemos por mai – sem a referência do autor. 

Esperará por acaso a Europa que depois de séculos a saquear a África despojando-a da sua cultura, dos seus recursos materiais e humanos, de injetá-la com a sua febre perniciosa de consumo, vai poder encarar o novo milênio como uma espécie de fortaleza artilhada e compacta em cujo interior todos são felizes enquanto que, no exterior, a fome e o desespero alastram?

No conto de Edgar Allan Poe ‘A máscara da morte vermelha’ simboliza-se a futilidade da intenção do príncipe de se fechar no seu palácio a dar festas até que a peste passe.

A morte acabou por entrar.

A Europa é rica graças, essencialmente, a tudo o que levou da África.

Por acaso esperais que os africanos famintos fiquem padecendo da miséria dos…

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Conversa com Té Macedo

A sua grande habilidade e capacidade vocal, associada a uma excepcional aptidão para executar instrumentos, dos clássicos aos étnicos, dão-lhe o estatuto de versátil. Sendo este um dos aspectos de Té Macedo que mais rapidamente salta à vista, não é o seu único ´traço distintivo. A artista corporiza ainda muito valor humano, tenacidade e uma simpatia de difícil mensurabilidade.

A encarnação das mil faces da música

Té Macedo

O facto de ser a única tocadora de marimba conhecida é um dos aspectos incontornavelmente referidos em artigos e publicações que falem sobre Té Macedo. Outro título a ela associado é o de “cantora lírica”. Porém, ao que tudo indica, nenhum destes qualificativos esgota o âmbito da componente artística de Benuina Maria da Rosa Macedo – como os pais acordaram chamar-lhe. Pelo que a realidade tem demonstrado, “cantora versátil” seria a designação que melhor faria jus às suas características.

Nascida num dia 05 de Junho, no Marçal, um bairro da periferia de Luanda. Quando tinha um ano (em 1971) a sua família trocou o Marçal pelo bairro da Terra Nova, onde passou a viver. O seu nome, Té, é um diminutivo de Teresa, que o pai quis atribuir à filha. Acabou levando o nome da avó materna, Benuina, mas continuou ser tratada pelo nome derivado de Teresa.

Menina assanhadinha, segundo conta, desde cedo tornou-se muito conhecida pelas redondesas da Terra Nova, desde às B’s C’s…. e zonas afins. O seu gosto pela música também revelou-se muito cedo, tendo passado a coordenar o grupo coral de crianças da Igreja Cristo Rei (ex-São Domingos) quando tinha apenas nove anos.

Orientada pelos pais, que facilmente se aperceberam do talento do seu rebento, aos cinco anos começou a estudar balett na Academia de Música de Luanda. De 1978 a 1988 estudou piano, tendo-se dedicado ainda ao estudo de guitarra e clarinete.

Té Macedo conta que, mesmo antes de ir para a escola de música, tocava piano, mas de ouvido. Quando ouvisse o pai tocar ou apreciasse os acordes de uma música, pouco tempo depois era capaz de tocá-la com uma perfeição que impressionava quem a ouvisse. Esta habilidade foi desenvolvida fundamentalmente em casa, com considerável ajuda de Eduardo Paim, tratado por Kambwengo no seio familiar. Este último na altura havia chegado do maqui e estava hospedado em casa da família Macedo.

“O Kambwengo era particularmente bom em captar melodias apenas de ouvido e eu também desenvolvi esta técnica”, disse. Té Macedo confessou, inclusive, que nos primeiros tempos do estudo de piano ela decorava as notas exemplificadas pela professora e fingia estar a ler a pauta… até que a professora descobriu que a sua pupila não estava a ler as notas, embora as reproduzisse com perfeição.

O seu namoro com a marimba também remota dos tempos da sua meninice. Sempre suplicou aos mestre da marimba que a ensinassem, mas eles alegavam que a marimba apenas podia ser tocada por homens, sob pena de quando crescer ter os seus seios caídos de modo irremediável. Passou a captar os sons e espiar as técnicas. Quando um dia foi surpreendida pelos mestres a tocar a marimba com uma habilidade insuspeita, os especialistas renderam-se e, excepcionalmente, ensinaram os segredos da marimba à Té.

“Sangue, suor e lágrimas”

O período da vida que se seguiu a 1988 é definido por Té Macedo como tendo sido de “sangue, suor e lágrimas”. Depois de dez anos de estudo na Academia de Música de Luanda, “beneficiou de uma bolsa da cooperação Portuguesa, tendo ingressado no Conservatório de Música de Lisboa aonde estudou piano e canto. Terminou o curso de canto com a classificação final de 18 valores.

Este percurso, que poderia ser reduzido a poucas linhas numa nota biográfica, foi marcado por muitas lutas e dificuldades, como fez questão de realçar. “Tinha apenas 17 anos e estava a viver distante dos pais pela primeira vez. Houve várias situações de racismo e discriminação que tornaram ainda mais difícil este período”.

Té Macedo conta que durante a sua formação era muitas vezes discriminada. “Diziam-me muitas vezes: sabes que estás a tirar lugar a um português? Porque não estás a estudar com uma bolsa do teu país?…”. A autora da obra “kibukidilu” assinalou que o racismo é muito frequente da música clássica.

Relata, por exemplo, que depois de terminar o curso concorreu na Ópera Nacional de São Carlos (Portugal), onde ficou em 2.º lugar, mesmo tendo tido um desempenho que muita gente considerou ter sido consideravelmente melhor que o da concorrente que ficou em primeiro lugar, que por sinal era de nacionalidade portuguesa. Também concorreu na Gulbenkian, onde ficou em 6.º lugar. Estas colocações não permitem obter um contrato por tempo indefinido, mas apenas um contrato por termo certo.

“Depois de tudo o que passei no conservatório, o meu maior sonho era voltar em grande para o mau país”. A cantora considera ter realizado este sonho, tendo em conta a aceitação e o reconhecimento que o seu trabalho tem merecido. O seu primeiro espectáculo em terras angolanas foi no Huambo, em Maio de 2001. Depois teve outras actuações, como em Dezembro do mesmo ano, no casamento da empresária Isabel dos Santos e no festival de música “Festidez”, onde o público confirmou as suas capacidades artísticas, de que se foi falando desde à sua apresentação no planalto central.

Admite que tem sido muito bem tratada pelo público, particularmente em Angola, independente mente das idades e estratos sociais. Em 2005 foi agraciada pelo Prémio Nacional de Cultura e Artes.

A sua versatilidade instrumental e vocal levaram-na à autoria do primeiro projecto Angolano Lírico de fusão. Té Macedo pegou em temas do cancioneiro nacional e deu-lhes uma roupagem erudita, casando a orquestra sinfónica com instrumentos tradicionais e vocalmente imprimindo-lhe uma forte componente lírica.

O projecto, que veio amadurecendo desde 1997, foi gravado em Cuba com a Sinfónica Nacional, e contou com a participação do renomeado cantor / autor Pablo Milanés e as primeiras figuras da ópera cubana.

Durante o tempo em que estudou em Portugal, para além de ter aprendido oito anos de música e quatro de canto, frequentou paralelamente o curso de direito (até 3.º ano) e outros cursos técnico-profissionais como: contabilidade, secretariado, animação sócio-cultural, teologia básica e informática. “Por um lado queria voltar ao país o mais preparada possível. Por outro, queria contrarias a ideia que muita gente tem, de que o artista não sabe fazer mais nada”.

Aconteceu comigo

Um dos momentos que a nossa convidada desta semana destacou como tendo sido particularmente marcante foi, durante a gravação do seu disco “kibukidilu”, ter tido a oportunidade de trabalhar com Pablo Milanês, um grande nome da música. Foi ainda mais emocionante saber que era a primeira vez em que aquele monstro da música grava numa língua que não o espanhol… e cantou em kimbundu no tema “Maria Kanfimba”.

Outro grande momento, conta, foi quando numa gala no Cine Tropical os técnicos se esqueceram de ligar o meu microfone. “Sem me aperceber deste pormenor, cantei normalmente com outros artistas que tinham os microfones activados, sem que a minha voz tivesse sido abafada pelos outros sons…. Foi emocionante”.

Té Macedo Responde

Que factos mais a marcaram?
O nascimento do meu primeiro filho e o lançamento do meu primeiro disco

O que significou para si o disco
Foi o culminar de um processo de amadurecimento pessoal e profissional. O facto de ter antes trabalhado com outros grupos, como os “Jovens do Hungo”, “Ngoma Makamba” e outros artistas, como é o caso do Bonga e do Valdemar Bastos, permitiu-me ganhar experiência e criar um cartão de visitas próprio

Dom e estudo, o que é mais importante?
Para mim o dom é mais preponderante do que o estudo da música

Que acções defenderia em prol da música nacional?
A criação de um conservatório que desperte o gosto pela música nacional de raiz e a execução de instrumentos nacionais; a criação de uma fundação que descubra e promova novos valores no domínio das artes bem como a urgente recolha, sistematização e formalização do cancioneiro angolano.

Por António Kassoma “NGUVULU MAKATUKA”
Texto publicado no “Caderno de Fim de Semana” do Jornal de Angola em 2012

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CONFISSÕES (e notas) DE UM FRUSTRADO GERACIONAL

Sinto muito, MÃE ANGOLA. Peço que me perdoes por não ser o filho que merecias. Peço também desculpas pelos meus irmãos. Alguns deles nem se dão conta do mal que te fazemos. Outros sabem mas optam por fingir ou fugir. Há coisas que não estão ao nosso alcance melhorar, mas conversar abertamente sobre o assunto já é um começo. Não sei se é o melhor começo, mas algum começo anima-me mais do que o comum silêncio sobre o que te afasta do progresso.

Já fui um bebé que nasceu com prazo vencido e quase teve de ser arrancado do ventre materno para um cenário de incompreensível guerra entre pessoas que – afinal – queriam a mesma coisa. Já fui uma criancinha que via e percebia mais coisas do que os adultos desconfiavam.

Uma criancinha que lutava com a dificuldade de perceber por que razão os primeiros amigos da sua vida não tinham pais. Se eles tinham barrigas enormes, por que razão os ossos dos seus peitos pareciam desenhar os caminhos que seguiam para o Mundudu ou para kakoma? Era ainda mais difícil perceber por que razão as suas clavículas pareciam reservatórios para água, de tão fundas que estavam. Era uma criancinha não só expansiva, mas preocupada e em grande medida perturbada.

Hoje ainda sou essa criancinha cujos primeiros amigos eram, afinal, os meninos acolhidos pelos Assuntos Sociais depois de tudo terem perdido nas suas aldeias. Eles não tinham algo a que pudessem chamar casa ou lar. Muito menos poderiam falar em família. Apenas podiam contar com um equipamento social, que funcionavam ao lado da casa onde vivi os primeiros dias e anos, no Ukuma. Na casa que eles alguma vez tiveram apenas comunicavam em umbundu. O filho do professor de língua portuguesa (que também era delegado da educação no município) e da senhora enfermeira e professora de biologia pouco parecia ter a ver com aquelas crianças. Mas pode haver fronteiras entre crianças? Quem as estabelece?

Pois, já fui aquela criancinha que tentava aumentar o seu umbundu para melhor comunicar com aqueles seus amigos, e também com o Zimbabwe, amiguinho daqueles tempos iniciais cuja imagem o tempo tragou. Lembro apenas que vivia algures num dos bairros do Ukuma, do lado direito da estrada que dá para a Missão Evangélica Elende, onde continuava a viver a avó CIPEMBE.

Já fui um menino que deixou essa envolvente do início da infância para se refugiar no Wambu. Como os meus amigos, a guerra fez com que também deixasse a minha casa por causa da guerra. Felizmente conservei a família e pudemos refazer a vida num novo lugar. Essa criança viveu, cresceu e passou por muitas coisas que não cabem aqui nem agora. Nesse percurso aprendeu a amar a pátria e a lidar com toda a gente com a deferência imanente a essa qualidade de gente. Seres humanos vivos, únicos e irrepetíveis. Talvez nem aja com a deferência devida, mas há quem diga que a minha pessoa procura fazer isso na maior parte das situações.

Também já fui adolescente rebelde e irreverente, com cabelos compridos, calças largas a cobrir o magro corpo, com o caderno (único para o ano lectivo) enrolado e guardado sem particular cuidado no bolso de trás das calças jeans. “Por que razão teria mais do que um caderno se não tinha o hábito de tomar apontamentos?”.

Anos antes esse rapaz era até relativamente “certinho” na Escola Deolinda Rodrigues. Lá sim, era preciso ter os cadernos bem tratados e a pasta em ordem. Senão nem, à sala chegava-se sem levar uma peculiar reprimenda. No matutino, depois de cantar o hino, o professor fixe tratar-lhe-ia da saúde. Esse professor, cujo nome verdadeiro quanse ninguém sabia, fazia o gesto associado essa expressão depois de enfiar umas valentes bofetadas aos alunos em jeito de repreensão pública. Era comum essas acções ocorrerem no matunino ou vespertino. Isso eram outros tempos em outra escola. O adolescente rebelde era aparentemente bem diferente daquele outro. Apenas tinha um qualquer caderno enrolado, do qual pouco ou nenhum uso fazia. O mais estranho é que o sujeito que nem apontamentos tomava, no fim da aula era interventivo e os professores pareciam gostar de conversar com ele. Não fazia apontamentos, mas prestava atenção às aulas. Além disso, sempre teve o hábito de ler os livros das classes mais avançadas durante os tempos livres. De resto, a opção de ouvir as aulas era mais prática à alternativa, num contexto em que mal havia carteiras ou algo equivalente. Havia alunos que tinham de se sentar à janela, e alguns que se encostavam à parede desde o lado de fora da sala, usando o parapeito para apoiar o caderno. Não faltavam colegas que tinham dificuldade em encarar com nornalidade o adolescente rebelde, num ambiente em que a maioria parecia seguir uma disciplina quase militar. Com o tempo alguns aprenderam a não julgar o Boy apenas pela aparência de bailarino pop-rock, o que ele efectivamente era com os seus companheiros do grupo “Os Tártaros”.

A verdade é que as pessoas são normalmente mais do que os outros as julgam. O adolescente rebelde já tinha visto várias vezes os olhos da morte, mas tudo isso ajudou-o a seguir em frente e depois se tornar num pequeno jornalista e universitário irreverente. De algum modo ainda o sou o bebé, a criancinha, o adolescente e o universitário das linhas acima.

Mas o tempo passou e muita coisa mudou. Muitas vontades nobres e sonhos iluminados se vão agarrando teimosamente à minha alma, mas os olhos têm menos luz e os sorrisos têm uma estranha semelhança com esgares. Por que será? Por que será que um sujeito que se poderia considerar de classe média tem claros sinais de frustração? Sim, frustração! Talvez porque a vida o tenha ensinado a importância de ouvir. A importância de não julgar sem conhecer e olhar para o outro como igual. É difícil não acusar o toque da realidade chocante que vamos vivendo.

Como não se preocupar com omnipresente desordem e a competição cancerígena que leva as pessoas a fazer (quase) tudo em nome de mais uns cifrões? Outro dos sintomas a assinalar é a febre pelas conquistas pessoais, ao ponto de inviabilizar a prosperidade sustentável do colectivo. Esquecemos que e apenas ela (prosperidade colectiva) pode assegurar o futuro. Basta olhar para o trânsito em Luanda. Quando será que vamos perceber que a ordem precede o progresso e que este é impossível sem aquela? Quando será que as nossas autoridades vão perceber o enorme perigo decorrente da crescente tendência de ignorar ou contornar as regras? Por que razão temos todos tanta pressa? Para onde vamos com esta febre? Não será que o país está a correr tanto que eventualmente se terá esquecido da alma algures no caminho?

Ninguém vê isso? Falar sobre isso leva a que possamos ser considerados frustrados. Mas não é difícil imaginar que não me incomode muito ser visto como um “não alinhado”. Fui isso toda a vida e não pretendo prescindir da minha individualidade agora que os cabelos se me vão ficando brancos antes do tempo. Aliás, não acredito que alguém possa ver virtude em ser ou estar “alinhado” com a mbwanja. Pode ver e tirar vantagens, mas não ousaria alegar haver alguma virtude na desordem.

Hoje dizer que alguém é frustrado parece mau. Mas não é. Temos todos razões para estarmos frustrados. Talvez sejamos todos uns frustrados embora apenas alguns os admitam. Não se riam. Frustrem-se meus senhores! Mas tenham uma frustração controlada e motivante no sentido da acção esclarecida e construtiva no sentido de ultrapassar(mos) os factores que desencadeiam a frustração. Em termos psicológicos, a frustração é o estado mais ou menos acentuado de tensão ou inquietação psico-emocional decorrente de não conseguirmos realizar ou alcançar algo que seja relevante para nós. Ora, considerando este tímido enquadramento da frustração, em Angola não ser ou estar frustrado é que é anormal e talvez mesmo patológico. Só não se sente frustrado quem não se sente na obrigação de contribuir mais e melhor para que ao menos façam sentido os sacrifícios dos nossos ancestrais e dos heróis tombados nas nossas diferentes guerras. Nenhuma morte é justificada e jamais poderíamos justificar a ida deles, mas ao menos que os nossos mortos compreendam “porque partiram afinal”, para citar Teta Landu. Só não sente frustração quem não prestava atenção quando cantava o hino da sua organização cívica da infância, não conhece compromisso contido no hino do seu partido, acha que Angola Avante é apenas uma canção e não faz ideia do quanto custou a nossa bandeira.

Quem se dá ao trabalho de prestar atenção a esses elementos da nossa identidade individual e colectiva, rapidamente percebe que ainda estamos muito longe de ser o “homem novo crescido na pátria de Neto”. Quando éramos miúdos tínhamos imensas brincadeiras. Mas brincadeira tem hora, tem períodos da vida em que podemos e devemos dedicar algum tempo às brincadeiras e, sobretudo, nem todas as brincadeiras são de bom gosto. Algumas delas são mesmo inaceitáveis.

Vale perceber que as brincadeiras sempre devem estar ao serviço de um propósito positivo, normalmente de radical educativo. Não se pode dizer isso sobre muitas das actuais brincadeiras. Veja-se que quando se brincava ao “polícia e ladrão”, normalmente o polícia conseguia apanhar o ladrão e o prendia. Não pedia gasosa, nem sugeria que o saque fosse partilhado. Quando se brincava às casa, havia a tendência de imitar as práticas e obrigações que um dia teríamos nas nossas casas. Era ensaiar e antever coisas boas. O que dizer então do polícia que finge não ver a infracção do taxista porque este paga o seu complemento remuneratório ou entretanto o hiace é do chefe dele. O que dizer uma pessoa encarregue de administrar dado território e não consegue apresentar e executar um plano integrado e sustentável de transportes colectivos? Será porque o caos dos kandongueiros representam rendimentos para muitos dos que têm a obrigação de promover o seu desaparecimento mediante a eliminação das carências e desarticulações do transporte colectivo que ditaram o seu aparecimento? Essas são boas brincadeiras?

Será que é de bom gosto a brincadeira que se faz na recolha de lixo, quando o Estado até poderia ter custos próximos de zero se fizesse uma concessão de recolha de todo o lixo da urbe e o seu aproveitamento para gerar energias limpas por captura de metano nos aterros sanitários? Isso pode? São conhecidas várias propostas dessas, mas parece que a nossa malta que deveria encaminhar esses assuntos é a mesma que criou essas fracas e amadoras empresas de recolha de lixo que andam a sugar a massa do Estado sem cumprir as suas obrigações.

Será que podemos nos dar ao luxo de brincar de país? Se já fui todas as coisas que atrás disse; se me sinto frustrado por fazer parte de uma geração que tinha tudo para prestar um serviço à Nação digno dos sacrifícios consentidos pelos nossos kotas, cada dia que passo aumenta a minha frustração e angústia pelo risco de país nenhum deixar aos meus descendentes. Por mais exagerada que seja essa nota, julgo que a possibilidade de não termos um país para deixar aos nossos pode tornar-se real, caso não acordemos rapidamente e deixemos de lidar com os problemas (des)estrututantes que se agudizam. E não há como resolver problemas estruturais com base em jeitinhos, esquemas e cunhas. Essas técnicas ou tácticas (para quem preferir) é que nos levaram ao estado actual. Ou seja, levaram-nos à progressiva corrosão do Estado em alguns domínios, onde agora o caos é senhor e o individualismo capitalista é o príncipe. Não foi para isso que os mais velhos lutaram. E não podemos deleitar-nos com o rebuçado do adiamento ou sorver distraidamente o gelado do gradualismo. Há coisas que têm que ser feitas já, e de modo inequívoco. É que o não cumprimento das regras tende a tornar-se cultura. Isso é quase certo quando numa dada sociedade as pessoas violam sistematicamente as regras e, de bónus, gozam da complacência da impunidade. Quando algo se torna cultura(l) passa a ser o norma(l), desafiando o sentido do que deveria ser o direito vigente. Este caminho não é apenas perigoso. É jurídica, política, administrativa e socialmente cancerígeno.

Por favor, vamos despertar para a seriedade e gravidade do assunto. Não nos limitemos a olhar para os nossos pés precisamos olhar um pouco para cima e para os lados. Como de modo lapidar disse a Maria de Kamwanga, uma das maiores cronistas deste país, é importante lembrar que “ENTRE O NOSSO UMBIGO E O CÉU EXISTE A HUMANIDADE INTEIRA”. Entre as nossas pretensões pessoais e o sucesso existe o país inteiro, com as suas heranças e ónus em relação às gerações do passado e responsabilidades em relação às futuras gerações. ESTAMOS JUNTOS.

Sempre,

António Kassoma “NGUVULU MAKATUKA”

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A inocência das crianças e a indiferença das lideranças: nada justifica a morte

Julho termina. Agosto esfrega as mãos e tem dificuldades em controlar a saliva. O que será que conta fazer com as suas mãos este tal de Agosto? Derramar mais sangue de crianças apenas porque nasceram num contexto geográfico e político de guerra? Afinal nascer é mal-e-mau? Pode, pelo contrário, Agosto levantar as mãos num firme gesto de negação e término às inaceitáveis situações que foram ocorrendo nesta parte intermédia do MMXIV ano, em diferentes pontos do globo.

Será que, como Pilatos, Agosto vai simplesmente lavar as mãos perante a possibilidade de agir com justiça e responsabilização, optando antes por ignorar os aviões abatidos como se de tiro aos pratos estivéssemos a tratar. O que vai fazer em relação aos descendentes dos filisteus (agora chamados israelitas) que acham que as crianças da palestina são terroristas muito perigosos geneticamente programados para lançar rocket’s às suas crianças, pelo que devem preventivamente ser assassinadas como se de anátema se tratasse? Será que só as crianças dos judeus são paridas com dor e têm direito a um lugar sob este sol que nasce para todos? Que mundo estranho é este!

Claro que, na verdade, não é Julho nem Agosto quem age. O tempo e o espaço apenas são o palco deste desfile de insanidade colectiva, marcada por actos e decisões de pessoas que era suposto serem políticos e, como tal, necessariamente comprometidos com uma ética pro-vida e pro-dignidade. Mas não. Endireitam as gravatas e fazem pose perante as câmaras para reiterar a (i)racionalidade das suas decisões. Esses imperialistas do capitalismo-democrático que andam a dourar e impor ao mundo fazem inveja a Hitler, Musolini, Staline e outros tantos que agiram como se o Estado fosse mais importante que as pessoas. Os actos que eles julgam defensáveis fazem inveja à demência em si mesma, aos psicopatas mais assustadores e aos sociopatas mais abismantes.

Como não consigo falar com as importantes pessoas que têm praticado esses acto, talvez seja melhor falar mesmo com o mês, nem que corra o risco de ser tido por louco. Será que o mês me responde? Insisto: o que será que Agosto vai fazer com a saliva que vai brotando nas suas glândulas? Vai engolir milhões em guerra quando imensas multidões não têm a possibilidade de os dentes escovar pela simples razão de os não terem podido sujar há dias vários? Vai Agosto investir milhões em lipo-aspiração e futilidades como os BB, quando esses recursos deveriam servir para melhorar a educação alimentar preventiva, aumentar a produção de alimentos naturais e não transgénicos, bem como criar subvenção para livros? Estranha gente. Onde está a humanidade deles. O que é para eles a humanidade. Qual é para eles o fim (em si mesmo)? Por onde andam as referências éticas na política? Para onde vai a esperança olhar quando cinzento o espírito estiver e a alma recusar-se a ficar alva? Entretanto segue a gente nesta louca viagem, deixando o mundo mais indigente. Que estranho e demente está a ser o mundo corrente.

PRO PACE ET FRATERNITATE GENTIUM!…

Ao Dispor,

António Kassoma “NGUVULU MAKATUKA”

criancas-palestinas

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A essencialidade da espiritualidade na preservação da raça humana

Espiritualidade

Talvez nem precise dizer que não sou religioso. A maioria das pessoas com que privo ou troco ideias rapidamente se apercebe disso passadas parcas unidades de tempo. Mas sinto-me em condições de reclamar e lutar pelo direito de ser reconhecido e tratado como um ser dado à espiritualidade.

O facto de não ser religioso não tem apenas a ver com o facto de há mais de dez anos ter decidido deixar de ir à igreja, numa atitude de coerência decorrente da particularidade de ter deixado de me dispor e até pretender conformar a minha vida com certas regras caras à minha então congregação. Para bem dizer, tenho uma convicção diferente quanto a determinadas questões que para a igreja-organização são importantes mas que o estudo e a  meditação reforçaram a minha percepção de que tal não era de todo exigível numa acepção de igreja enquanto congregação de pessoas que celebram e pregam o Espírito da Luz, mas que conservam a capacidade e prerrogativa de uma relação pessoal e proveitosa com o Ele. Neste sentido a igreja é por excelência um órgão colegial em que todos os seus membros estão numa posição de igualdade e equivalência, embora possam estar funcionalmente diferenciados.

Até a altura em que a minha relação com as religiões evoluiu para a situação actual, uma espécie de ecumenismo equidistante, em regra tinha uma relação bastante próxima com a religião cristã (evangélica). Como a maioria de nós, essa relação partiu do meio familiar.

A memória mais antiga que tenho remota aos tempos do Ukuma, antes de termos tido que nos refugiar no Wambu como consequência da falta de segurança provocada pelos constantes ataques da então insurgência armada. Não tenho condições de distinguir a realidade dos acréscimos com que a imaginação a possa ter retocado, mas lembra-me que a igreja parecia ter uma forma semelhante a de um grande armazém com paredes brancas e até parece que tinha estruturas de madeira encostadas a algumas das suas paredes. Era qualquer coisa parecida a grandes estrados colocados paralelamente à parede. Mas julgo que eram seguros. Sem risco de cair. E até algumas pessoas (sobretudo crianças) subiam neles para poder assistir ao culto, compensando com a mesma cartada  a baixa altura e a insuficiência de cadeiras.

Devia ter cerca de cinco anos. Mas já nessa altura era um ser pouco dado a viver em esquadrias e fazer tudo com régua, esquadro, transferidor e essas coisas. Buscava resposta para as minhas perguntas face à aporexia que o mundo me despertava – como normalmente o faz com as crianças – e já era pouco dado a acatar ordens que para mim não faziam sentido, especialmente quando quem ditasse a regra fosse incapaz de demonstrar a racionalidade ou a utilidade da mesma.

Já no Wambu terei ido quase todos os domingos ao templo da Igreja Evangélica do Bom Pastor. É um edifício imponente com cobertura triangular com paredes castanhas. O castanho é dos tijolos expostos em virtude de o edifício na altura não ter sido ainda concluído.

Não sei se hoje as paredes daquele templo foram finalmente cobertas com um simples reboque de cimento que seja. É que isso dependeria em grande medida da contribuição dos membros e aquelas comunidades são maioritariamente de poucas posses. Além disso, a Igreja Evangélica Congregacional não é tão agressiva quanto às contribuições dos membros nem em relaçao ao dízimo. Explicam a importância mas não exigem. Deixam que seja o grau de amadurecimento do crente ou a sua generosidade a ditar quanto querem “dar a Deus”.

Mas talvez os cultos não fossem a principal motivação das minhas idas àquela igreja, onde  a minha mãe e os seus irmãos também já terão ido quando crianças. É que havia lá alguns pés de cafeeiros e era fixe curtir os seus frutos. E a Igreja até fica a pouco mais de cem metros da casa dos meus avós, onde ficamos acoitados antes de termos conseguido um lugar para morar no São Pedro urbano. Além desses doces frutos, junto da igreja havia um Kacambelo (lê-se Katchambelo). Não sei como se poderia dizer em português, mas era um pequeno recinto com relva autóctone, onde as crianças daquela zona se juntavam para o mais variado tipo de brincadeira. Havia a vantagem de que raramente as pessoas se feriam no Kacambelo, mas no fim do dia os sorrisos eram substituídos por esgares e até caretas. É que, depois de brincar no capim, essas expressões eram inevitáveis na hora do banho.

Quando passamos a viver no São Pedro urbano a igreja que frequentava era a do Kalilonge. Também era Evangélica Congregational. Aí era mais crescido e era comum apanhar pelo menos uma a duas surras por mês, devido à tendência de fazer coisas que para mim eram normais e justificadas pela febre de conhecer e entender o mundo e as pessoas. Eu acharia que estava a ser um explorador do mundo como o faziam os cientistas que assistia nos documentários designdos “caleidoscópio”, mas os adultos tinham uma outra visão. Achavam que era malandro.

Nesse contexto, mostrar interesse em ir a igreja tinha uma série de vantagens. Enquanto lá estivesse não estaria na disponibilidade de “ajustar as contas” (código para apanhar surra) por algo que tenha “descoberto” durante a semana e que os meus pais apenas se tenham apercebido tardiamente. Além disso, o dinheiro que era dado para a oferta acabava sempre por me sugerir que não ficava bem no balaio da igreja, e que ficava melhor no kafokolo de uma senhoras que vendia kalifibeu ou caramelos na praça do Kalilonge, a pouco mais de quinhentos metros da igreja.

Na adolescência e nos primeiros anos de adulto passei a fequentar a Igreja Baptista. Foi um período muito gratificante. Eu sempre soube imensas coisas da Bíblia. Além das leituras directas, por volta dos doze ou traze anos já conhecia grande parte do seu conteúdo, sobretudo do Velho Testamento. São histórias únicas e ricas que tinha ouvido contar imensas vezes pelo meu pai. É que ele cresceu na igreja e até parece que os “planos” eram que se tornasse pastor, mas nos anos 80 não podeia ir à igreja porque era do Partido (já desde 61, na verdade) e a adopção do modelo marxistas implicava que não pudesse frequentar a igreja. Eu estava sempre disposto a ouvir o meu amigo (é o que mais sinto que ele é para mim).

Como dizia, a fase da Baptista foi muito gratificante para mim. Como não poderia deixar de ser, não era um cristão típico. Continuei a ser um “explorador” e seguia não sendo propenso a me colocar nas páginas da vida como nos ensinaram em desenho técnico: tudo com régua, esquadro, transferidor, rebatimento e essas coisas. Estava mais para a arte livre (de apreciar a vida), que não apenas em papel ou tela, mas também nas paredes e mesmo em becos escuros. Arte sem limites em direcção à plenitude.

Algumas das coisas mais gratificantes foi ter aprendido a fazer um estudo metódico e objectivamente sustentável da palavra. Isso associado aos esquemas de raciocínio que tinha aprendido com o velho e a minha crónica vontade de aprender coisas novas tiveram e têm um benefício enorme. E em sede da Baptista conheci alguns dos melhores amigos que tenho até hoje e certamente hei de os ter para sempre, ainda que raramente estejamos juntos.

Depois de ter sido baptizado tive ainda outra grande prenda: a gestão democrática. A Igreja Baptista é provavelmente a organização mais democrática de que já tive o privilégio de fazer parte. Os membros contribuem com as ofertas, os dízimos e para fins específicos, mas têm o direito de participar nas decisões sobre o que fazer com os recursos. A prestação de contas é uma realidade consolidada. E ainda por cima trata-se de uma democracia pura, ao estilo da Grécia Clássica. Como as decisões nas igrejas da Convenção Baptista de Angola são tomadas de modo livre e independente em cada congregação, não há representantes. É democracia directa. As lideranças da Igreja ao nível provincial e nacional têm funções de coordenação e não de dar ordens hierarquicamente.

Toda essa incursão foi para reforçar a clareza do meu posicionamento em relação à diferença entre religião e espiritualidade. Quando praticadas adequadamente, as religiões podem ser um veículo de acesso a determinadas manifestações da espiritualidade. Mas não se confundem com esta, tão pouco têm com ela uma relação de consumpção. De facto, na sua acepção epistemológica religião vem de Relicare: voltar a ligar-se com o transcendental. Mas este sentido acabou degenerando-se no quadro actual. O sentido em que aqui abordamos a expressão vai já com um toque exegético de enquadramento face às práticas resultantes da aludida regeneração. Neste sentido religião seria o hábito social de ir à igreja. Alguns deles eventualmente seriam crentes ( no sentido de acreditarem efectivamente no Alto e procurar melhorar o seu ser, levando-o para cada vez mais próximo da luz, da paz, do bem e da evolução da alma), mas grande parte dos religiosos são hoje pessoas que vão à igreja porque têm esse costume, lá podem ver os amigos e ainda vendem a ilusão de que sejam pessoas do bem, sem ter qualquer intenção séria e consistente de viver o bem e fazer dele sua prática corrente.

É perfeitamente concebível a humanidade sem religião ou religiões. Mas ela jamais sobreviveria sem espiritualidade. Não é fácil explicar o que seria então a espiritualidade, nem seria boa ideia ter a pretensão de o fazer. Mas em termos simples poderá ser caracterizada como sendo a crença estável e sustentável de que a vida e o mundo estão de algum modo ligados a realidades transcendentais e na convicção de que fazemos parte de algo maior e mais importante do que o ego, prioritário em relação aos nossos interesses subjectivos, e mais valioso do que os entes individualmente considerados, sendo ainda mais valioso do que a hipotética soma total do valor dos indivíduos.

A paz, a liberdade, a igualdade e a justiça são elementos por via do qual grande parte das pessoas se dá conta da sua espiritualidade, independente do veículo que use. Esses valores são transcendentais. Também o é o próprio conceito de humanidade. Portanto, nem já podemos falar de humanidade se não considerarmos aspectos de ordem espiritual. No mínimo, o reconhecimento de que não existiriamos sem os nossos pais e que estes sucessivamente não existiriam sem os seus genitores, o que nos coloca na posição e condição de sermos mais um tijolo sobre o qual repousa a expectativa de que providencie e cuide para que outros tijolos se possam firmar com base em si. E existe a consciência de que o modo como desempenhamos esta função (de tijolo) deverá ditar se o edifício melhora e se consolida, ou se degenera e se deteriora.

Ora, quando pautamos a nossa vida e os nossos actos por valores transcendentais como a justiça e a igualdade, grande é a probabilidade de darmos uma contribuição positiva para o templo da humanidade.

Neste ponto parece claro que para sermos dados à espiritualidade não precisamos necessariamente passar antes pela religiosidade. Não deve ser necessário prometerem-nos a vida eterna ou nos ameaçarem com o castigo eterno para agirmos bem com os outros e exercitarmos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro. Pelo menos, não deveria ser necessário.

Bastaria que houvesse uma tomada de consciência sobre o carácter imprescindível da espiritualidade, independente de como se manifesta, desde que esta nos torne mais humanos. E tudo o que nos leva a sermos desumanos com os outros não pode de modo algum ser aceite como sendo de dimensão espiritual, uma vez que esta tende para a ordem e perenidade.

Como estamos hoje em termos de espiritualidade nos termos em que a tentámos ilustrar nesta reflexão? Estamos péssimos. Nem já as religiões (grande parte delas) estão alinhadas com os valores maiores que as fariam veículos de aproximação à espiritualidade. Muito piores estarão as instituições seculares.

Um dos mais chocantes casos talvez seja de Israel, que em nome da sobrevivência da sua nação entende ter o direito de extinguir a nação vizinha, sobre cujo território se instalou, numa partilha de desequilíbrio progressivo em cujos termos a outra parte pouco ou nada foi tida em conta.

E tudo porque houve o holocausto durante a II Guerra Mundial?!… E o que é afinal que podemos chamar a esses assassinatos de civis palestinianos. Guardadas as devidas diferenças, também é um holocausto. Tem diferença de grau e método, mas são actos com a mesma essência: tratar e matar o outro como se não fosse digno de ser tratado como humano. E isso por causa de questões de ordem genética e de crenças.

E issa maneira de ignorar por completo a individualidade e a especificidade do outro é juntamente consequência do relativismo exacerbado que resulta da ausência de espiritualidade e da sobreposição da nossa visão do mundo em relação à posição do outro neste mesmo mundo, que é de todos. Assim o foram as guerras santas, a inquisição, o tráfico de escravos, o colonialismo, os diferentes absolutismos, etc.

São corolários da incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro – porque unidos por algo maior e mais importante que ambos.

Vale a pena reflectir sobre essas questões. Vale a pena avaliarmos o modo como nos posicionamos em relação a esta dimensão do nosso ser e do nosso papel no mundo, quer o chamemos espiritualidade, humanidade ou qualquer outra coisa.

UBUNTU!…

Sempre,

António Kassoma “NGUVULU MAKATUKA”

 

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NOS LIMITES DO HORIZONTE*

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Kuito Kanavale, terra de gente valente.

Kuito Kanavale, com espírito em K,

Como Katyavala o percursor.

Enorme foi o ímpeto  destruidor,

Mas nobres e firmes foram os bravos defensores.

 

Kuito Kuanavale, irmão de Kwemba.

De tanta fundanga, Kwemba chegou a ser sinónimo de FAPLA.

“Vamos ao Kwemba, porque somos Kwembas (…)”,

Cantavam eles enquanto iam em defesa da pátria.

Graças ao seu sangue suor e lágrimas,

As terras do fim do mundo são hoje terras do progresso.

 

Kuito Kanavale, o início do futuro.

Os limites do seu horizonte marcaram a fronteira.

A partir daí, não mais avançaria a força estrangeira.

Aqui defendemos a nossa bandeira.

 

Kuito Kanavale, nascido da confluência de rios.

Faz parte de uma família cheia de beleza e riqueza.

Kuando Kubango é a sua casa;

Recursos imensos dão-lhe asas,

Para seguir em direcção a um melhor porvir,

Sem se desligar das outras bandas desta imensa província,

Como sede em  Menongue, serpenteado pelo rio Cuebe.

 

Há quem o escreva com o cê.

Cu… Cui… Cuito Canavale…

Até pode ser aceite, desde que não seja cê de colonialismo.

Nem cê de contendas, porque agora a paz é que interessa.

Apenas aceitamos ser for o cê de carinho.

Carinho por Angola, nossa pátria, nossa mãe.

Carinho pelas lindas mulheres desta terra,

Lindas e fortes como só elas.

 

Obrigado aos nossos bravos guerreiros,

Obrigado às nossas mães que ofereceram ao país os seus melhores filhos.

Só assim a nação não foi deitada ao chão.

Obrigado Angola pela enorme capacidade que dás aos teus herdeiros,

De ultrapassar as makas de outrora e viver como irmãos verdadeiros.

 

Por favor, por todos nós,

Aceitem a mais profunda e nacional gratidão.

Twapandula, Tuasakidila, Tuntondele…

TUNASAKWILA!

 

Por: António Kassoma “NGUVULU MAKATUKA”

 

Em Menongue, aos 28 de Junho de 2014

 (*) Tributo dos excursionistas da “NDJILA YA TCHILI/Caminhada Verdadeira 2014” aos combatentes da batalha do Kuito Kanavele

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